QUANDO NADA IMPORTA - E ISSO PODE SER LIBERTADOR
Às vezes algo acontece dentro de mim. Não é tristeza, não é nem cansaço... é um peso de existir que chega do nada. Como se a vida fosse uma pergunta que eu não só não sei responder, mas também não lembro de ter me inscrito pra fazer.
Li um negócio do Cioran esses dias que me cutucou: ele dizia que nascer já foi o primeiro erro. E cara, como isso soou verdade. A gente é jogado aqui. Sem manual, sem sentido e pronto!. E a única coisa que a gente ganha — essa consciência — é justamente o que mais dói. Os bichos vivem. A gente sofre porque pensa.
Já imaginei como seria viver sem essa neurose de significado. Só existir. Comer, dormir, morrer sem drama. Mas a gente sabe. Sabe que vai morrer, e isso estraga a festa. Aí a gente corre atrás de trabalho, filhos, projetos... querendo deixar riscos no mundo. Querendo sussurrar: “ei, eu estive aqui!”. Só que no fundo, a gente sabe que ninguém tá ouvindo.
Schopenhauer sempre me surpreende e desta vez, quando li sobre a vida ser uma engrenagem cega, aí a coisa ficou mais difícil. A gente corre, alcança, e já quer outra coisa. É uma sede que não acaba. Mas tem uma coisa: quando eu paro e olho pro céu à noite, tudo isso parece tão pequeno. As humilhações, as derrotas... tudo vira pó. E isso, ironicamente, me acalma.
Nietzsche me fez ter um outro olhar. Se não tem Deus, não tem roteiro. Eu invento. É assustador? Pra caramba. Mas também é libertador. É dançar sabendo que a música vai acabar — e justamente por isso, dançar com tudo.
E o Camus... ah, o Camus. Sísifo empurrando a pedra. Ele diz que dá pra imaginar o cara feliz. E talvez seja isso: a vida não tem script. É improviso. E o improviso pede coragem, não explicação.
No fim das contas, o que me salva são os detalhes. O café quente de manhã, o sol no rosto no inverno, a risada de alguém que importa. Essas coisas não dão sentido. Elas são maiores que o sentido. São pequenos socos no vazio.
E o mais doido: quando você para de exigir que a vida signifique algo, até a dor fica diferente. Ela para de ser castigo e vira só... parte. O prazer também — vira presente, não conquista.
Sei que pode parecer deprimente, mas pra mim, foi o contrário: foi alívio. Quando parei de procurar um sentido gigante, passei a achar beleza nas coisas miúdas. O vazio virou parceiro, não inimigo.
A vida é isso aqui: uma dança sem coreografia. Um improviso. E no improviso, vale tudo — contanto que você escolha seus próprios passos.
E aí, você também não cansou de correr atrás de um sentido que talvez nem exista? E se, em vez de tentar decifrar o vazio, você simplesmente dançasse dentro dele? A escolha é sua: ficar parado ou inventar a dança.

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