A RELIGIÃO INCULTA PERVERTIDA NO PALCO DO ABSURDO
A sensação de desarranjo parece pairar no ar, mais densa a cada manhã. Não são apenas crises pontuais, aquelas que os livros de história registram como capítulos isolados. É como se o próprio chão da normalidade tivesse rachado, e agora pisamos em terreno movediço, onde o absurdo se disfarça de cotidiano. As notícias, um cortejo interminável de conflitos e catástrofes, já não causam espanto, apenas um cansaço mudo. Schopenhauer talvez visse nisso a confirmação sombria de seu mundo como pura Vontade, cega e insaciável, devorando-se a si mesma num espetáculo sem sentido. O palco global parece refletir essa luta cega, onde a razão é a primeira vítima.
Em meio a essa turbulência, velhas ferramentas de consolo se transformam em armas contundentes. A religião, que para alguns ainda guarda um refúgio de transcendência, é frequentemente sequestrada por discursos de ódio e exclusão. Assistimos, atônitos ou já anestesiados, a atrocidades cometidas em nome do sagrado. Como Cioran ironizaria, com seu olhar ácido sobre a condição humana? Ele certamente apontaria para a facilidade com que o fervor místico degenera em fanatismo, essa paixão tosca que oferece certezas absolutas a mentes incapazes de suportar a dúvida e o vazio. A fé, quando não temperada pela reflexão, vira combustível para a intolerância.
O fanatismo, essa caricatura grotesca da espiritualidade, prospera na ignorância. É inculto por definição, pois rejeita o questionamento, o diálogo, a nuance. Ele se alimenta de simplificações grosseiras, transformando textos complexos em slogans de guerra e figuras sagradas em estandartes de dominação. Schopenhauer, ao desconfiar profundamente de qualquer dogma, identificaria aqui a negação da razão individual, substituída pela submissão acrítica a um rebanho enfurecido. A "Vontade" coletiva, desprovida de luz intelectual, torna-se uma força destrutiva impiedosa.
Vemos líderes, autoproclamados porta-vozes do divino, incitando violência, justificando opressão, semeando divisão. Usam o manto da religião para legitimar ambições de poder, para oprimir minorias, para silenciar vozes dissidentes. É o abuso institucionalizado do sagrado, transformando templos em trincheiras e preces em gritos de guerra. Cioran, o grande cético das convicções, diria que não há espetáculo mais deprimente do que a instrumentalização da crença para fins tão vis e terrenos. A suposta busca pelo eterno vira apenas mais uma máscara para a sede de domínio temporal.
A própria noção de "normalidade" se esvai. O que antes era inaceitável torna-se banal. Discursos que seriam considerados delirantes há poucos anos agora ecoam em corredores de poder. A violência em nome de ideais religiosos, ou mesmo pseudo-religiosos, deixa de chocar, integrando-se ao panorama desolador. Schopenhauer observaria que este é o rosto da Vontade quando desgovernada, quando não reconhece limites éticos ou racionais. É o impulso bruto, a ânsia irrefletida, elevada à condição de princípio orientador, mesmo que disfarçada de devoção.
Há uma patologia coletiva nisso tudo. A adesão cega a narrativas salvacionistas, sejam elas políticas ou religiosas, parece ser um sintoma de um mal-estar mais profundo. O indivíduo, esmagado pela complexidade do mundo moderno, pela falta de sentido palpável, agarra-se a certezas toscas oferecidas por fanáticos. Cioran compreenderia esse desespero, essa ânsia por algo sólido em meio ao caos, mas denunciaria a fraqueza moral de quem troca a liberdade pensante pela segurança ilusória da submissão dogmática. É a fuga covarde para a jaula do dogma.
Os abusos cometidos em nome de um deus, ou de qualquer divindade ou ideologia absoluta, são particularmente repugnantes porque pervertem o que poderia ser uma fonte de conforto ou elevação. Transformam o potencialmente sublime em profundamente sórdido. Schopenhauer, embora crítico das religiões organizadas, reconhecia nelas um valor simbólico para lidar com o sofrimento. Mas o fanatismo esvazia qualquer símbolo, reduzindo-o a um instrumento de poder e destruição. É a antítese de qualquer busca espiritual genuína, que pressupõe, no mínimo, um mínimo de autocrítica e humildade.
Como não sentir náusea diante da facilidade com que se mata, se oprime, se destrói, invocando um suposto mandato celestial? Como não ver, nessa justificativa religiosa para a barbárie, a mais clara expressão do absurdo humano que tanto atormentava Cioran? Ele via na história um cemitério de certezas, e no presente, a repetição das mesmas loucuras com novas roupagens. O fanatismo religioso contemporâneo é apenas mais uma máscara para a mesma velha fera da intolerância e do desejo de aniquilar o diferente.
É um paradoxo trágico: aquilo que promete união e paz torna-se o principal motor de discórdia e violência. A fé, que poderia ser um bálsamo para a angústia existencial apontada por ambos os filósofos, converte-se, nas mãos dos intolerantes, em veneno coletivo. Schopenhauer diria que é a Vontade se manifestando através das formas mais baixas do instinto de grupo, da negação do outro. Cioran acrescentaria seu lamento pela incapacidade humana de viver com a incerteza, preferindo a certeza assassina à dúvida que liberta.
Diante desse panorama, resta o desafio de manter os olhos abertos, sem sucumbir nem ao niilismo paralisante nem às ilusões reconfortantes. Schopenhauer sugeriria uma certa resignação, não passiva, mas uma compreensão da natureza do mundo que permitisse agir com compaixão dentro do possível. Cioran nos convidaria ao ceticismo vigilante, à recusa das grandes narrativas redentoras, especialmente aquelas manchadas de sangue e ignorância. Talvez seja na lucidez desencantada, na coragem de encarar o vazio sem preenchê-lo com monstros ideológicos ou fanatismos, que resida a única dignidade possível neste teatro insano. Resistir à tentação do absoluto, mesmo quando o mundo parece exigir uma certeza, eis uma tarefa hercúlea para tempos tão anormais.
Ref,:
Schopenhauer, Arthur. Die Welt als Wille und Vorstellung. Erster Band. Leipzig: F. A. Brockhaus, 1819. (Zweiter Band: 1844).
Schopenhauer, Arthur. Parerga und Paralipomena: Kleine philosophische Schriften. 2 Bände. Berlin: A. W. Hayn, 1851. (Insbesondere die Kapitel "Über Religion" und "Aphorismen zur Lebensweisheit").
Cioran, Emil. Histoire et utopie. Paris: Gallimard, 1960.
Cioran, Emil. The Temptation to Exist. Translated by Richard Howard. Chicago: University of Chicago Press, 1998.
Schopenhauer, Arthur. Parerga et Paralipomena: Petits écrits philosophiques. Traduction de Jean-Pierre Jackson. Paris: Éditions Coda, 2005.

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