REFLEXÕES SOBRE PODER, MEDO E RESISTÊNCIA
O poder absoluto não corrompe absolutamente; ele atrai os corruptíveis.
Por que cidadãos de toda uma nação, ou pelo menos grande parte deles, disseram “sieg heil” e assassinaram milhões de judeus, milhares de ciganos, inimigos políticos e homossexuais? Por que o governo de Israel, mata inocentes de fome, numa vingança desproporcional aos ataques do grupo Hamas? "Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor." (Levítico 19:18).
Por que os questionadores estão calados? Essas perguntas, que ecoam tragédias históricas e conflitos contemporâneos, encontram um terreno fértil para reflexão em uma das obras mais profundas da ficção especulativa: a saga Duna, de Frank Herbert.
Em meio à comoção midiática que cercou os lançamentos cinematográficos de Dune: Part One (2021) e Dune: Part Two (2024) dirigidos por Denis Villeneuve, vale a pena mergulharmos nas camadas filosóficas da narrativa original, publicada em 1965. A obra, que se expandiu para seis volumes escritos pelo autor original e outros por seu filho, Brian Herbert, é muito mais do que ficção científica; é uma exploração densa sobre os mecanismos do poder, a psicologia da submissão e os fundamentos da liberdade.
A genialidade de Herbert reside em sua capacidade de tecer um universo com tramas políticas, religiosas e ecológicas complexas, sem recorrer a simplificações ideológicas. Ele não oferece respostas fáceis, mas convida o leitor a um exercício constante de questionamento. Questionar o senso comum é, afinal, o primeiro e mais crucial ato de resistência contra a submissão a qualquer forma de autoridade não examinada.
O próprio Herbert definiu sua intenção da seguinte forma: seu objetivo era criar uma mitologia que desafiasse a forma como entregamos nossas vidas a líderes – não apenas aos "messias", mas a qualquer um que assuma esse papel e influencie multidões a segui-lo cegamente. Essa premissa é o cerne de Duna. A saga nos alerta que a associação livre e cooperativa entre indivíduos é a base da evolução humana, mas que essa coletividade deve ser sempre voluntária e crítica, nunca baseada na obediência irrefletida.
Um dos pilares da reflexão herbertiana é a natureza da liderança. A saga de Paul Atreides em Arrakis é uma investigação profunda sobre como o "manto do herói" corrompe e isola. Herbert argumenta, de forma brilhante, que "o poder absoluto não corrompe absolutamente; ele atrai os corruptíveis". Pessoas genuinamente honestas raramente são atraídas pela sede de dominar outras; quem busca o poder frequentemente o faz movido por uma ambição que, embora natural, pode ser direcionada para a subjugação quando não é temperada pelo escrutínio público.
A grande questão que permeia a obra é: por que sociedades inteiras consentem com sua própria opressão? A resposta, segundo Herbert, é o medo. O medo é o assassino da mente, a "pequena morte" que paralisa o juízo crítico e leva à obliteração do self. É por medo da incerteza, do caos ou da escassez que os indivíduos abrem mão de sua autonomia em troca de uma promessa de segurança e conforto, entregando suas faculdades críticas a figuras que parecem fortes o suficiente para protegê-los.
O trunfo dos tiranos, como ilustrado na complexa teia de Arrakis, não está na força bruta, mas na capacidade de ocultar suas verdadeiras intenções por trás de carisma, diplomacia e narrativas messiânicas. Eles exploram padrões cíclicos de comportamento nos quais instituições nascem, florescem e entram em decadência – um ciclo alimentado muito mais pela aceitação tácita dos governados do que pelo poder real dos governantes. A obra é um estudo magistral de como a apatia e a busca por um guia podem ser o terreno mais fértil para o despotismo.
Nesse contexto, a ecologia de Arrakis serve como uma metáfora poderosa. Assim como o povo Fremen entende que a libertação do seu mundo depende do árduo trabalho de criar e conservar cada gota d'água, a liberdade individual exige um cuidado igualmente constante e deliberado. Ela não é um estado permanente, mas um jardim que deve ser cultivado diariamente através do pensamento independente e da coragem de assumir a responsabilidade por suas próprias escolhas. A passividade, como a desertificação, avança silenciosamente e consome tudo.
Por fim, a obra nos convida a uma autocrítica profunda sobre nossas próprias motivações. Buscar apenas a satisfação imediata dos desejos é uma ilusão que leva à servidão voluntária. Como escreve Herbert, "busque a liberdade e torne-se cativo de seus desejos. Busque a disciplina e encontre sua liberdade". A verdadeira liberdade não é a ausência de restrições, mas a conquista do autodomínio e a coragem de questionar todas as formas de poder estabelecido – especialmente aquelas que se vestem de salvação.
É uma lição atemporal, urgente e, como demonstra Arrakis, uma batalha que se trava primeiro dentro de cada um de nós.
Ref.:
HERBERT, Frank. Duna. São Paulo: Editora Aleph, 2017.
HERBERT, Frank. O Messias de Duna. São Paulo: Editora Aleph, 2018.
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2019 (Edição Comemorativa).
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Créditos: este artigo foi escrito originalmente por GePe, e adpatado pelo autor do blog.
Para entender o contexto: Duna (no original em inglês Dune) é um romance de ficção científica do escritor americano Frank Herbert (1920-1986), publicado originalmente pela editora Chilton Books nos Estados Unidos em 1965. [...] é considerado o livro de ficção científica mais vendido de todos os tempos.
Dune (no Brasil e em Portugal, Duna) é um filme épico de ficção científica estadunidense dirigido por Denis Villeneuve e escrito por Jon Spaihts, Villeneuve e Eric Roth. É o primeiro da planejada adaptação de duas partes da obra homônima por Frank Herbert, abrangendo os acontecimentos da primeira metade do livro.

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