OS DEUSES EM SILÊNCIO E O SOM DAS BOMBAS
A história humana é marcada por uma contradição profunda: a mesma fé que promete consolo e significado também justifica horror e destruição. Nenhum cenário atual ilustra essa paradoxal natureza melhor do que o conflito entre Israel e Gaza, onde a terra considerada santa por três grandes religiões é regada com o sangue dos seus fiéis. Aqui, a promessa de um paraíso futuro parece autorizar a criação de um inferno presente.
Observamos, impotentes, a escalada de violência. De um lado, um estado que busca sua segurança e sobrevivência, fundamentado em uma identidade religiosa e histórica milenar. Do outro, um território sitiado, onde a resistência é frequentemente moldada por uma interpretação radical do Islã. Ambos os lados invocam Deus, ou Alá, como seu escudo e sua espada. A pergunta que ecoa, silenciada pelos estrondos das bombas, é: que tipo de divindade ordena a morte de crianças em seu nome?
O teólogo Paul Tillich oferece uma ferramenta crucial para desmontarmos essa lógica mortal. Ele fez uma distinção vital entre a fé autêntica e o que chamou de "fideísmo demoníaco". Para Tillich, a verdadeira fé é uma questão de "preocupação última", um mergulho profundo no mistério do fundamento do ser. Não se trata de obedecer cegamente a um ditame, mas de uma corajosa entrega ao sagrado que transcende toda compreensão.
O perigo, ele alertava, surge quando confundimos o sagrado, que é infinito e inatingível, com um símbolo finito. Quando elevamos nossa bandeira, nossa nação, nosso livro ou nossa interpretação religiosa à posição de "preocupação última", cometemos idolatria. Transformamos um pedaço da criação em um deus absoluto. Esse deus-ídolo, por ser finito, é inseguro, ciumento e violento.
É exatamente esse deus-ídolo que vemos em ação no conflito. A segurança absoluta de um estado, a posse incontestável de uma terra, a vingança por um ataque horrendo – todas essas causas, ainda que compreensíveis em um nível humano, são elevadas a um status divino. Tornam-se preocupações últimas que justificam qualquer meio. O mesmo acontece do outro lado, onde uma visão religiosa extremista transforma a morte e a destruição do "outro" em um mandamento sagrado.
Nesse cenário, a morte não é mais um fracasso trágico da política ou da humanidade; é um sacrifício permitido, ou mesmo exigido, pelo deus-ídolo. O luto de uma mãe israelense ou palestina é instrumentalizado. Sua dor vira apenas um combustível para a máquina de guerra de uma ideologia que se disfarça de fé. A religião, que deveria confortar o enlutado, é usada para explicar e validar a própria causa de seu luto.
Os filósofos modernos, como o já citado Tillich, de outras formas, já nos alertavam sobre os perigos dessas absolutizações. Nietzsche, ao declarar "Deus está morto", não celebrava um mundo vazio, mas alertava para o perigo de matarmos o Deus transcendente apenas para erguermos ídolos ainda mais terríveis em seu lugar – como o Estado-nação, a ideologia racial ou o fanatismo religioso. Ele previu o vazio que seria preenchido por demônios.
E de fato, o que são o nacionalismo extremo e o fundamentalismo religioso senão novos deuses, sedentos por sangue e absoluta devoção? Eles prometem significado, identidade e redenção através da aniquilação do diferente. Eles não toleram dúvidas, questionamentos ou nuances. Sua linguagem é a da pureza e da traição, não da complexidade e da compaixão.
É aqui que a fragilidade dos regimes democráticos se torna mais evidente. A democracia, em sua essência, é criada sobre a dúvida, o diálogo, o compromisso e a proteção das minorias. Ela assume que nenhuma verdade é tão absoluta que não possa ser questionada, e nenhum objetivo é tão sagrado que justifique aniquilar os procedimentos que garantem a liberdade de todos.
No entanto, quando confrontada com a força bruta e a convicção inabalável dos deuses-ídolos, a democracia parece lenta, hesitante e fraca. Seu processo de debate parece fútil perante a certeza divina de quem age em nome de uma fé distorcida. A tentação, então, é que a própria democracia se torne iliberal, adotando os métodos de seus algozes em nome da autopreservação.
Vemos isso em Israel, uma democracia que, sob a ameaça existencial constante e pressionada por coalizões nacionalistas-religiosas, se vê forçada a tomar medidas que corroem seus próprios fundamentos liberais. O estado de exceção torna-se a regra. A segurança, um deus-ídolo, começa a ditar leis que negam direitos básicos e aprofundam a ocupação, alimentando o ciclo de ódio.
Do outro lado, em Gaza, a ausência de estruturas democráticas e a ascensão do Hamas, um grupo que absolutiza sua própria visão religiosa e política, mostram o resultado final dessa lógica: uma teocracia onde a população está sendo como escudo humano em um guerra santa perpétua.
O mundo exterior, composto por outras democracias, assiste a tudo isso paralisado. Sua economia globalizada e seus interesses geopolíticos contraditórios impedem uma ação decisiva. A linguagem da diplomacia e dos direitos humanos mostra-se insuficiente contra a linguagem do apocalipse e do mandato divino. A comunidade internacional debate-se em resoluções inócuas, enquanto o deus-ídolo da realpolitique dita suas ações.
A angústia que sentimos ao acompanhar as notícias é, em parte, a frustração de ver a razão sendo derrotada pela irracionalidade vestida de fé. É o desespero de testemunhar a complexidade histórica sendo reduzida a slogans de guerra e a narrativas maniqueístas de bem versus mal, onde cada lado se vê como o herói bíblico e o outro como o inimigo demoníaco a ser exterminado.
O caminho a frente, se é que existe um, exige uma coragem imensa: a coragem de dessacralizar os ídolos. Significa desafiar a ideia de que qualquer estado, qualquer nação, qualquer interpretação religiosa ou qualquer causa política possui uma verdade tão absoluta que mereça rios de sangue inocente.
Isso não implica em relativismo moral ou em ignorar atrocidades. Pelo contrário, é afirmar que o valor da vida humana é uma preocupação mais última do que qualquer bandeira. É lembrar, com Tillich, que o verdadeiro divino habita na profundidade da vida, não na superficialidade da tribo. Está no abraço de um pai enlutado, não no discurso de um líder que incita à violência.
Os regimes democráticos, para sobreviverem a essa ameaça, precisam redescobrir sua própria alma. Precisam parar de temer a linguagem dos valores universais e dos direitos humanos, que é a única capaz de enfrentar a linguagem do fanatismo. Precisam proteger vigorosamente o espaço cívico onde o diálogo, por mais difícil que seja, pode acontecer.
Isso significa apoiar vozes de paz e moderação em ambos os lados, por mais fracas que pareçam no momento. Significa pressionar por soluções que priorizem a dignidade humana sobre as conquistas territoriais. Significa lembrar que a segurança genuína nunca será alcançada através da opressão infinita do outro.
A batalha final não é entre judeus e muçulmanos, ou entre Israel e Palestina. É entre aqueles que, de todos os lados, acreditam que a vida humana é sagrada e merece proteção, e aqueles que absolutizaram seus medos, suas dores e suas ideologias, transformando-as em deuses sedentos por morte.
O silêncio os deuses, tão perturbador nesses momentos, talvez não seja uma indiferença. Talvez seja um desafio. Um convite para que nós, humanos, finalmente cresçamos e assumamos a responsabilidade por nosso destino, deixando de projetar nossa violência em um céu vazio e parando de matar em nome de um Deus que, na visão de tantos místicos e teólogos, é antes de tudo amor. Até que isso aconteça, as mortes continuarão a ser permitidas, e a terra santa continuará a ser um altar onde se sacrificam os filhos de Abraão, repetidamente, em um ciclo que parece não ter fim.
Ref.:
Tillich, Paul. Systematic Theology. Vol. 1. University of Chicago Press, 1951.
Tillich, Paul. The Courage to Be. Yale University Press, 1952.
Arendt, Hannah. The Origins of Totalitarianism. Harcourt, Brace & World, 1951.
Nietzsche, Friedrich. Zur Genealogie der Moral: Eine Streitschrift. Reclam Verlag, 2010.
Armstrong, Karen. Fields of Blood: Religion and the History of Violence. Alfred A. Knopf, 2014.
Butler, Judith. Am Scheideweg: Judentum und die Kritik am Zionismus. Campus Verlag, 2013.

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