OS FANTASMAS QUE NOS ASSOLARAM, REGRESSAM
Vivemos tempos estranhos e contraditórios. De um lado, nunca estivemos tão conectados, com tanta tecnologia ao nosso alcance. De outro, parece que velhos fantasmas do passado estão regressando, vestidos com roupagens modernas. Não são golpes militares clássicos como outrora, com tanques nas ruas e generais declarando lei marcial na televisão. A ameaça atual é mais silenciosa, mais sorrateira. É uma erosão lenta, um desmonte paciente das engrenagens que sustentam a democracia.
Se olharmos para as ditaduras do século XX, na América Latina ou na Europa, a tomada de poder era geralmente brutal e abrupta. A violência era explícita, a censura óbvia, e a opressão, um fato inquestionável da vida cotidiana. Era um mundo de preto e branco, onde o medo era o instrumento principal de controle. Todos sabiam onde estava a linha que não podia ser cruzada.
O jogo agora é diferente. O manual do autoritário moderno foi reescrito. Ele não precisa dar um golpe; basta ganhar uma eleição. Uma vez lá, começa a torcer as regras do jogo a seu favor. Os pilares que deveriam conter seu poder – a imprensa, a justiça, o legislativo – são sistematicamente minados. A imprensa é desacreditada, chamada de mentirosa. Juízes e tribunais são atacados quando suas decisões são desfavoráveis. É um processo de asfixia institucional.
A grande pensadora Hannah Arendt, que viveu na própria pele a fuga do regime nazista, falava sobre a "banalidade do mal". A sua ideia era genial e assustadora: o mal não vem necessariamente de monstros caricatos, mas de pessoas comuns que deixam de pensar, que aceitam ordens absurdas sem questionar. Esse é talvez o paralelo mais assustador com nosso tempo. A normalização do absurdo, a aceitação passiva de notícias falsas e a rotinização da violência verbal são o terreno fértil onde o autoritarismo moderno germina.
Timothy Snyder, um historiador que se dedica a estudar essas sombras da história, é claro no seu aviso: não devemos ser complacentes. Achar que "isso não pode acontecer aqui" é o primeiro erro. As democracias, ele diz, não morrem sempre num rompante dramático. Elas podem morrer aos poucos, com o adormecimento gradual de sua gente, distraída com o circo da política espetacular e com as crises do dia a dia.
A estratégia clássica de criar um inimigo comum permanece mais viva do que nunca. Antes, o alvo podia ser uma classe social, uma etnia ou uma ideologia. Hoje, o alvo pode ser "a corrupção do sistema", "a esquerda globalista" ou "os imigrantes que ameaçam nossa cultura". O objetivo é o mesmo: unir um grupo pelo ódio a outro, substituindo o debate racional pela paixão tribal. O líder se coloca como o único salvador possível contra essa ameaça inventada.
E a grande arma para isso hoje? A internet. No passado, controlar a informação significava controlar um ou dois canais de TV e os principais jornais. Hoje, a batalha é pela narrativa. É criar um emaranhado de sites, blogs e grupos de mensagens que espalhem uma versão alternativa da realidade, onde mentiras são repetidas até se tornarem "verdades" para quem está dentro da bolha. É uma guerra de desgaste contra o próprio conceito de fato objetivo.
Vivemos numa era de incerteza, como bem captou o sociólogo Zygmunt Bauman. Nessa "modernidade líquida", os referenciais são frágeis, os empregos são precários, e o futuro parece uma névoa. Nesse cenário, a promessa de um líder forte, que oferece soluções simples e apela para um passado idealizado (que nunca existiu), é um ímã para o medo e a frustração. A liberdade, por vezes, pode parecer um fardo pesado; a autoridade, um alívio tentador.
Por isso, o que estamos a ver é uma mutação. Um autoritarismo que não precisa prender toda a oposição – basta saturar o debate público com tanta desinformação que o cidadão comum desiste de tentar saber o que é real. É uma estratégia de cansar, de confundir, de desmobilizar. A liberdade de expressão permanece, mas esvaziada de significado, porque o espaço público foi envenenado.
O perigo maior é que tudo parece normal. Podemos publicar o que quisermos nas redes sociais, podemos criticar. Essa é a armadilha. A sensação de normalidade é falsa quando as instituições que garantem a democracia a longo prazo estão a ser sabotadas por dentro. É como um paciente que parece saudável por fora mas tem uma doença degenerativa silenciosa.
Não se trata de dizer que estamos a viver uma réplica exata dos anos 30 ou das ditaduras dos anos 70. As circunstâncias são outras. O que importa é reconhecer os padrões, os truques retóricos, as táticas de poder. São ferramentas atemporais usadas por aqueles que ambicionam o controle total. Ignorar esses ecos históricos é enterrar a cabeça na areia.
Então, o que fazer? A resposta não é simples, mas começa pela consciência. Arendt insistia na necessidade vital de pensar, de refletir criticamente sobre o mundo. Snyder pede-nos para assumirmos responsabilidade, para defendermos as instituições que protegem a nossa liberdade no dia a dia. Bauman nos convida a reconstruir laços reais, fora do virtual, criando comunidades resilientes.
No fim das contas, a lição é que a democracia não é um monumento estático. É uma prática. Um músculo que atrofia se não for usado. Exige participação, desconfiança saudável perante o poder e coragem para defender o que é certo, mesmo quando é inconveniente. Cabe a cada um de nós olhar para o passado não com nostalgia, mas como um manual de sobrevivência.
O futuro ainda está por escrever. As lições da história estão lá, à nossa disposição, para que possamos escolher um caminho diferente. O autoritarismo conta com a nossa passividade. A resposta, portanto, está na ação – por mais pequena que seja – de não aceitar, não normalizar e não se calar.
Ref.:
ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
SNYDER, Timothy. Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX para o Presente. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: O Neoliberalismo e as Novas Técnicas de Poder. Lisboa: Relógio D'Água, 2018.

Comentários
Enviar um comentário
Obrigado pelo seu comentário! Informo que ele estará sujeito a moderação, mas sempre respeitando seu direito a opinião.