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QUANDO NADA IMPORTA - E ISSO PODE SER LIBERTADOR

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Às vezes algo acontece dentro de mim. Não é tristeza, não é nem cansaço... é um peso de existir que chega do nada. Como se a vida fosse uma pergunta que eu não só não sei responder, mas também não lembro de ter me inscrito pra fazer. Li um negócio do Cioran esses dias que me cutucou: ele dizia que nascer já foi o primeiro erro. E cara, como isso soou verdade. A gente é jogado aqui. Sem manual, sem sentido e pronto! . E a única coisa que a gente ganha — essa consciência — é justamente o que mais dói. Os bichos vivem. A gente sofre porque pensa. Já imaginei como seria viver sem essa neurose de significado. Só existir. Comer, dormir, morrer sem drama. Mas a gente sabe. Sabe que vai morrer, e isso estraga a festa. Aí a gente corre atrás de trabalho, filhos, projetos... querendo deixar riscos no mundo. Querendo sussurrar: “ei, eu estive aqui!”. Só que no fundo, a gente sabe que ninguém tá ouvindo. Schopenhauer sempre me surpreende e desta vez, quando li sobre a vida ser uma engrenagem ce...

COMO A SOMBRA DO GENOCÍDIO DESTRÓI O NOSSO AGORA

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A gente gosta de achar que a humanidade evolui, que aprendemos com as tragédias do passado. Mas a verdade é que a sombra do genocídio ainda ronda o nosso presente, teimosa e cruel. Não são apenas capítulos de um livro de história; são feridas abertas que sangram até hoje, destruindo vidas e condenando gerações inteiras a um sofrimento sem fim. Figuras como Hitler e Pol Pot não foram apenas ditadores; foram arquitetos do mal puro. Eles industrializaram a morte, transformando o ódio em política de Estado. O Holocausto e os campos de morte no Camboja deveriam ser lições definitivas, mas parece que a memória do mundo é curta. A pergunta que fica é: o que realmente aprendemos com tudo isso? Hoje, diante dos nossos olhos, a história se repete . A perseguição brutal ao povo rohingya em Mianmar é um exemplo vivo e chocante. Famílias inteiras foram arrasadas, mulheres violentadas, comunidades apagadas do mapa. Os que conseguem fugir acabam amontoados em campos de refugiados, dependendo de ...

POR QUE O MEDO DA MORTE NOS AFASTA DA VIDA?

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Às vezes, deitado na cama antes de dormir, aquele pensamento surge do nada: um dia, tudo isso vai acabar. Não é só um pensamento passageiro; é uma certeza que pesa no peito, um frio na espinha que lembra que nossos dias são contados. Essa consciência da finitude, do nosso limite absoluto, é uma das experiências mais universais e, ao mesmo tempo, mais angustiantes do ser humano.  Por que algo tão natural assombra tanto? Filósofos antigos e o Budismo têm se debruçado sobre essa questão há milênios. Eles não viam a morte como um monstro, mas como um mestre – um professor rigoroso cujas lições, se aprendidas, podem libertar-nos de uma ansiedade paralisante. O problema não é a morte em si, mas o nosso relacionamento doentio com ela. Vivemos como se fôssemos eternos. Planejamos décadas à frente, acumulamos posses como se pudéssemos levá-las conosco e nos apegamos a status e até mesmo a pessoas, com uma força que nega, veementemente, a lei mais básica da existência: tudo muda, tudo pas...

OS FANTASMAS QUE NOS ASSOLARAM, REGRESSAM

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Vivemos tempos estranhos e contraditórios. De um lado, nunca estivemos tão conectados, com tanta tecnologia ao nosso alcance. De outro, parece que velhos fantasmas do passado estão regressando, vestidos com roupagens modernas. Não são golpes militares clássicos como outrora, com tanques nas ruas e generais declarando lei marcial na televisão. A ameaça atual é mais silenciosa, mais sorrateira. É uma erosão lenta, um desmonte paciente das engrenagens que sustentam a democracia. Se olharmos para as ditaduras do século XX, na América Latina ou na Europa, a tomada de poder era geralmente brutal e abrupta. A violência era explícita, a censura óbvia, e a opressão, um fato inquestionável da vida cotidiana. Era um mundo de preto e branco, onde o medo era o instrumento principal de controle. Todos sabiam onde estava a linha que não podia ser cruzada. O jogo agora é diferente. O manual do autoritário moderno foi reescrito. Ele não precisa dar um golpe; basta ganhar uma eleição. Uma vez lá, co...

OS DEUSES EM SILÊNCIO E O SOM DAS BOMBAS

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A história humana é marcada por uma contradição profunda: a mesma fé que promete consolo e significado também justifica horror e destruição. Nenhum cenário atual ilustra essa paradoxal natureza melhor do que o conflito entre Israel e Gaza, onde a terra considerada santa por três grandes religiões é regada com o sangue dos seus fiéis. Aqui, a promessa de um paraíso futuro parece autorizar a criação de um inferno presente. Observamos, impotentes, a escalada de violência. De um lado, um estado que busca sua segurança e sobrevivência, fundamentado em uma identidade religiosa e histórica milenar. Do outro, um território sitiado, onde a resistência é frequentemente moldada por uma interpretação radical do Islã. Ambos os lados invocam Deus, ou Alá, como seu escudo e sua espada. A pergunta que ecoa, silenciada pelos estrondos das bombas, é: q ue tipo de divindade ordena a morte de crianças em seu nome? O teólogo Paul Tillich oferece uma ferramenta crucial para desmontarmos essa lógica mortal...

REFLEXÕES SOBRE PODER, MEDO E RESISTÊNCIA

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O poder absoluto não corrompe absolutamente; ele atrai os corruptíveis. Por que cidadãos de toda uma nação, ou pelo menos grande parte deles, disseram “ sieg heil ” e assassinaram milhões de judeus, milhares de ciganos, inimigos políticos e homossexuais? Por que o governo de Israel, mata inocentes de fome, numa vingança desproporcional aos ataques do grupo Hamas? " Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor." (Levítico 19:18).  Por que os questionadores estão calados? Essas perguntas, que ecoam tragédias históricas e conflitos contemporâneos, encontram um terreno fértil para reflexão em uma das obras mais profundas da ficção especulativa: a saga Duna , de Frank Herbert. Em meio à comoção midiática que cercou os lançamentos cinematográficos de Dune: Part One (2021) e Dune: Part Two (2024) dirigidos por Denis Villeneuve , vale a pena mergulharmos nas camadas filosóficas da narrativa original, publi...

QUANDO AGARRAR-SE DEMAIS NOS CONSOME

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Vivemos grudados. Nas coisas que acumulamos, nas pessoas que idealizamos, nas certezas que construímos tijolo por tijolo – como se fossem muralhas contra o caos. Esse apego, ah, parece tão natural... um porto seguro, um ponto fixo num mundo que não para de girar. Mas e se esse porto for uma ilusão? E se, ao nos agarrarmos com unhas e dentes, estivermos apenas cavando mais fundo a nossa própria armadilha? Figuras tão distintas quanto o sombrio Schopenhauer , o cáustico Cioran e os antigos sábios budistas, cada qual a seu modo, martelam numa ideia incômoda: o sofrimento que tanto lamentamos brota, com frequência, desse nosso agarrar-se desesperado. Dessa ânsia de possuir, controlar, eternizar o que é, por natureza, fugidio. Schopenhauer via o coração da vida como uma "Vontade". Não uma vontadezinha qualquer, mas uma força cega, insaciável, um monstro faminto morando dentro de nós. Essa Vontade é o motor. Ela nos empurra, sem descanso, na direção do desejo: mais dinheiro, mais...