O ENGODO COLETIVO DOS MITOS NA DEMOCRACIA

A sensação que fica, muitas vezes, é a de que acordamos em um país diferente daquele que aprendemos a amar nos livros de história. Observamos, entre um gole de café e a leitura das manchetes, uma transformação silenciosa que vai além das disputas partidárias comuns. Parece que a política deixou de ser o espaço do debate de ideias sobre como gerir a saúde, a educação ou a economia. Ela se tornou uma espécie de altar, onde figuras específicas são entronizadas não pelo que propõem, mas por aquilo que representam de forma quase mística. E o mais angustiante nisso tudo é perceber que essa entronização não veio de um golpe militar barulhento ou de uma invasão estrangeira; ela foi gestada dentro das próprias engrenagens da democracia, usando as ferramentas da liberdade para, lentamente, corroer a própria ideia de liberdade coletiva.

É estranho perceber como um sistema que preza pela alternância de poder e pela igualdade perante a lei consegue gerar figuras que se colocam acima da lei. O culto à personalidade, na sua essência mais primitiva, depende de uma fagulha de carisma e de um barril cheio de insegurança social. Quando a população se sente órfã de referências institucionais sólida, quando o judiciário parece distante, o congresso parece um clube de negócios e a imprensa parece uma trincheira de guerra, o indivíduo busca refúgio na figura do "salvador". Esse mecanismo psicológico é antigo, mas a modernidade democrática lhe deu uma nova roupagem. Em vez de um rei ungido por Deus, temos o líder ungido pelas pesquisas de opinião e pelos algoritmos das redes sociais. A contradição é brutal: o mesmo voto que deveria ser o instrumento de fiscalização do poder se torna o cheque em branco para a perpetuação de uma mitologia pessoal.

Essa construção mitológica não acontece no vácuo. Ela é erguida tijolo por tijolo através da repetição de narrativas que simplificam o mundo em "nós contra eles". Hannah Arendt, ao analisar as origens do totalitarismo, já nos alertava sobre o perigo do isolamento do indivíduo e da sua consequente adesão a movimentos de massa que oferecem uma verdade única e inquestionável (ARENDT, 1973). Nas democracias contemporâneas, esse isolamento se manifesta nas bolhas digitais. O algoritmo, que deveria nos mostrar o mundo, acaba nos mostrando apenas o reflexo daquilo que já acreditamos. E dentro dessa câmara de eco, a figura central, o líder, é blindada contra qualquer crítica. Qualquer questionamento a ele não é visto como divergência política saudável, mas como uma heresia, um ataque pessoal à fé dos seus seguidores. Forma-se assim uma comunidade de crentes dentro de um estado supostamente laico e plural.

A percepção coletiva, que deveria guiar a democracia, transforma-se em uma ferramenta suscetível à manipulação. Isso acontece pela formação de "pseudoverdades", declarações que não têm base nos fatos concretos, mas que carregam uma tal força emocional que não precisam ser confirmadas. Quando um político afirma repetidamente que a mídia é desonesta, que a ciência é uma conspiração e que as instituições são inerentemente corruptas, ele não está apenas se protegendo; ele está corroendo as bases que poderiam levá-lo à queda. Ele está criando um universo paralelo onde a sua palavra é a única fonte confiável de realidade. Nesse ponto, a sociedade democrática entra em curto-circuito. O debate racional, que exige paciência e concessões, é substituído pelo grito de guerra e pela devoção cega. O cidadão deixa de ser um agente político ativo para se tornar um torcedor fanático de uma causa que ele sequer controla mais.

E o que dizer da direção que essa correnteza toma? A mistura entre o culto à personalidade e a instrumentalização da religião cria um caminho perigosamente pavimentado rumo a uma teocracia disfarçada de república. Não se trata mais apenas de ter um político que frequenta um culto ou uma missa. Trata-se da apropriação da linguagem do sagrado para justificar decisões políticas terrenas. O governante deixa de ser um servidor público e passa a ser um "escolhido", um "ungido", alguém cuja permanência no poder é apresentada como uma vontade divina, e não como resultado de uma eleição falível e temporária. Essa retórica cria uma blindagem quase absoluta. Criticar o governante, nesse contexto, não é apenas um ato político; é uma blasfêmia. A pluralidade religiosa, garantida pela constituição, cede espaço a uma hegemonia moral que sufoca a diversidade de pensamento e impõe um código de conduta único a todos, independentemente de suas crenças pessoais.

Dentro dessa lógica perversa, emerge outro elemento contraditório para uma democracia: a naturalização da hereditariedade. Se a política se transforma em um culto e em uma missão divina, por que não passar esse legado para os filhos? A ideia de dinastia política não é nova, mas geralmente estava associada a feudos medievais ou regimes monárquicos absolutistas. No entanto, ao observarmos o cenário atual, vemos clãs se perpetuando no poder sob o manto da "continuidade do projeto" ou da "defesa do legado". É uma lógica que inverte os valores republicanos. Em vez de o filho precisar demonstrar competência e ideias próprias para merecer o cargo, ele o recebe como herança de um nome. A meritocracia, tão pregada nos discursos, é substituída pela linhagem. A sociedade assiste, perplexa, ao retorno de uma estrutura de poder que lembra as cortes europeias, onde o sangue valia mais do que o suor.

Essa tendência hereditária é a prova cabal de que o culto à personalidade esvaziou o conteúdo programático da política. O importante não é mais o plano de governo, mas quem está no comando da família que detém o "direito" de governar. Em O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, Karl Marx descreve magistralmente como uma figura medíocre pode ascender ao poder absoluto explorando o medo da burguesia e o cansaço das massas com o parlamento (MARX, 2011). A diferença, hoje, é que a figura não precisa dar um golpe de estado explícito; ela pode usar as eleições para legitimar o golpe contra a racionalidade. O parlamento não é fechado, mas é domesticado. A imprensa não é censurada, mas é desmoralizada. E a família do líder, aos poucos, vai ocupando os espaços de poder, criando uma teia de influência que torna quase impossível uma alternância real de poder.

A manutenção desse político como parâmetro de verdade, mesmo diante de evidências contrárias, é o fenômeno mais desafiador para a psicologia social contemporânea. Como explicar que uma pessoa, exposta a um fato objetivo, como o número de mortes em uma pandemia ou a conta de um desvio de verbas, insista em negar esse fato para proteger a imagem do líder? A resposta está na identidade. Para muitos, a adesão ao culto não é uma escolha política racional; é um componente central da sua própria identidade. Admitir que o líder errou ou mentiu seria admitir que uma parte de si mesmo está errada, o que gera uma dor psicológica insuportável. O engano, portanto, não é apenas imposto de cima para baixo; ele é, muitas vezes, uma autodefesa do indivíduo para não desmoronar diante da realidade. O político, ciente disso, alimenta esse mecanismo com narrativas de perseguição, reforçando a paranoia de que "estão tentando destruir nosso salvador".

Nesse cenário, a linguagem do dia a dia se corrompe. Palavras como "liberdade" são sequestradas para justificar a desobediência às leis. "Deus" é invocado para justificar a intolerância. "Pátria" é usada como sinônimo de um grupo específico de pessoas, excluindo milhões de outros brasileiros que pensam diferente. É a construção de um ambiente onde a contradição é a regra. Defende-se a família tradicional enquanto se ataca a educação dos filhos das famílias que discordam do líder. Defende-se a propriedade privada enquanto se invade o espaço público com símbolos de um projeto pessoal de poder. O cidadão comum, cansado de uma rotina de trabalho exaustiva e de um noticiário confuso, acaba se agarrando a esses atalhos mentais. É mais fácil seguir um homem forte que promete resolver tudo do que debater a complexidade de uma reforma tributária. A simplificação do mundo, vendida pelo culto à personalidade, é um sedativo para a angústia da vida moderna.

A grande tragédia é que esse processo não é uma ficção distópica; ele está ancorado em eventos históricos que deveriam nos servir de alerta. Basta olhar para o passado para ver que, sempre que uma república se vê acuada pela crise econômica e pela descrença nas instituições, surge a figura do homem providencial que promete restaurar a ordem e a grandeza. Na Roma Antiga, a passagem da República para o Império foi pavimentada pelo culto a Júlio César e, posteriormente, pela transformação de Otávio em Augusto, o "divino". A República existia formalmente, mas o poder já era hereditário e personalista. Séculos depois, na França pós-revolucionária, a figura de Napoleão Bonaparte surgiu como a encarnação da nação, coroando-se imperador e tentando estabelecer uma dinastia após um período de aparente soberania popular. O culto à sua personalidade era tão forte que, mesmo após a derrota, seu mito sobreviveu e trouxe seu sobrinho, Luís Bonaparte, ao poder em um golpe que espelha os mecanismos de manipulação da opinião pública que vemos hoje.

No século XX, os exemplos são ainda mais gritantes e dolorosos. A ascensão do nazismo na Alemanha não foi um acidente. Foi o resultado de uma crise econômica avassaladora, de um sentimento de humilhação nacional e do uso magistral da propaganda para criar o mito do Führer. O povo alemão, uma das sociedades mais cultas da Europa na época, entregou as chaves do poder a um homem que prometia um destino grandioso, ignorando os sinais de violência e autoritarismo. Da mesma forma, o stalinismo na União Soviética transformou o comunismo, uma ideologia de emancipação coletiva, no culto a um único indivíduo, que reescrevia a história e eliminava qualquer vestígio de dissidência. A propaganda estatal, nesses casos, foi a ferramenta para criar a "verdade" do regime, uma verdade tão sólida quanto uma nuvem de fumaça, mas que guiou milhões para o abismo.

Esses exemplos históricos não são meras curiosidades acadêmicas; são espelhos que refletem nossas próprias fragilidades institucionais. Eles nos mostram que a democracia não é um estado permanente de espírito, mas uma construção diária que exige vigilância constante. A opinião pública é um campo de batalha disputado palmo a palmo. Quando a educação crítica falha, quando o jornalismo independente é sufocado economicamente e quando as redes sociais privilegiam o ódio em detrimento do diálogo, o terreno fica fértil para o surgimento de novos mitos. E o mito, uma vez estabelecido, tende a se perpetuar. Ele busca a hereditariedade como forma de garantir que o mundo que ele criou não será desmontado por outros. É a tentativa de parar o tempo, de congelar a política em uma fotografia de família que se imagina no poder para sempre.

Talvez o maior engano seja acreditar que essa reflexão serve apenas para apontar o dedo para "os outros", para os seguidores fanáticos do líder que não admiramos. O culto à personalidade é uma tentação que ronda todo grupo social que busca um atalho para resolver seus problemas. A linha que separa a admiração por um líder da devoção cega é muito tênue e pode ser atravessada sem que percebamos. A verdadeira resistência a esse processo de teocratização e patrimonialismo do poder não está em substituir um mito por outro, mas em desinflar os mitos. Está em fortalecer as instituições que são chatas, lentas e burocráticas, porque são elas que garantem que o poder não se concentre nas mãos de uma só família ou de uma só crença.

É preciso resgatar o valor da falta de entendimento, do debate desconfortável e da dúvida como virtudes cívicas. Enquanto acreditarmos que existe um salvador da pátria que detém o monopólio da verdade, estaremos condenados a repetir os ciclos de autoritarismo que mancham as páginas da história. A democracia é frágil porque ela é feita de acordos entre pessoas que discordam. Quando trocamos a complexidade do acordo pela simplicidade do comando, abrimos mão do nosso poder e o entregamos de bandeja para quem promete nos governar como um pastor cuida de um rebanho — ou como um pai governa uma casa. E a casa, por mais confortável que seja, nunca mais será uma praça pública.

Portanto, ao olharmos para o horizonte político, devemos nos perguntar não apenas em quem votamos, mas em que tipo de sociedade queremos viver. Queremos uma sociedade onde o filho herda o trono do pai, onde a fé dita a lei para todos e onde o debate é silenciado pela idolatria? Ou queremos uma república imperfeita, barulhenta, cheia de contradições, mas onde nenhum homem ou mulher seja grande o suficiente para não caber dentro da lei? A resposta para essa pergunta definirá se os eventos sombrios do passado serão apenas um alerta lido nos livros ou se serão o roteiro do nosso futuro imediato. A história, como bem sabiam os antigos, tem o péssimo hábito de se repetir para aqueles que se recusam a aprender com ela.

O desafio está lançado. Ele começa na desconfiança saudável de quem promete o paraíso em troca de poder absoluto. Ele se fortalece na recusa em transformar seres humanos falhos em ícones sagrados. E ele se conclui na coragem cotidiana de afirmar que, antes de qualquer líder, antes de qualquer família e antes de qualquer dogma, existe a Constituição e a cidadania. Esse é o único antídoto contra o engano coletivo que nos empurra lentamente para um abismo teocrático e dinástico, disfarçado com as cores vibrantes de uma falsa democracia.




Ref.:

ARENDT, Hannah. The Origins of Totalitarianism. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1973.
HOFFER, Eric. The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements. New York: Harper & Row, 1951.
KERSHAW, Ian. The "Hitler Myth": Image and Reality in the Third Reich. Oxford: Oxford University Press, 1987.
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o Autoritarismo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


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