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O 'EU TE AMO PAI' QUE A DOR NÃO ME DEIXA ESQUECER

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A lembrança seguida de dor é inevitável. Mas não se trata de uma lembrança ocasional. Ela partiu num dia de outono no hemisfério sul, no dia 22 do mês de maio, quando as folhas já ensaiavam sua última dança, antes de adormecerem nas profundezas da terra . Na tradição Xamânica , diz-se que a hora do dia é a meia-noite; que na proximidade do inverno, tudo parece adormecer. Revisamos nossas conquistas e objetivos, exercitamos a paciência e nos preparamos para ciclos de morte e renascimento e que o outono retira a luz do sol do verão, faz as folhas verdes desaparecerem e transforma a paisagem em um cenário árido. O inverno elimina as pastagens com seu frio, deixando tanto os animais quanto os humanos mais vulneráveis. A primavera acaba com a frieza, e as cheias arrancam árvores e aterros ao longo dos rios. O dia mais extenso compacta as noites escuras e dissipa o frio do inverno. O sol do verão resseca a terra e gradualmente evapora a água e as pastagens. O verão encerra a primavera e sucu...

O ENGODO COLETIVO DOS MITOS NA DEMOCRACIA

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A sensação que fica, muitas vezes, é a de que acordamos em um país diferente daquele que aprendemos a amar nos livros de história. Observamos, entre um gole de café e a leitura das manchetes, uma transformação silenciosa que vai além das disputas partidárias comuns. Parece que a política deixou de ser o espaço do debate de ideias sobre como gerir a saúde, a educação ou a economia. Ela se tornou uma espécie de altar, onde figuras específicas são entronizadas não pelo que propõem, mas por aquilo que representam de forma quase mística. E o mais angustiante nisso tudo é perceber que essa entronização não veio de um golpe militar barulhento ou de uma invasão estrangeira; ela foi gestada dentro das próprias engrenagens da democracia, usando as ferramentas da liberdade para, lentamente, corroer a própria ideia de liberdade coletiva. É estranho perceber como um sistema que preza pela alternância de poder e pela igualdade perante a lei consegue gerar figuras que se colocam acima da lei. O cult...

TRAUMA, MEDO E AUTORITARISMO: UMA LEITURA PSICANALÍTICA DA CRISE NA POLÍTICA

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Nem toda crise política começa como uma simples disputa por poder ou recursos. Muitas vezes, o que se rompe primeiro é o sentido compartilhado que sustenta a vida coletiva. Quando instituições perdem credibilidade e discursos antes estáveis deixam de convencer, instala-se algo mais profundo que a divergência: uma espécie de desorientação sobre quem somos e que futuro ainda podemos imaginar juntos. É nesse ponto que a psicanálise se torna uma ferramenta fértil de leitura, pois nos lembra que a política não é movida apenas por cálculos racionais, mas também por afetos, fantasias e medos que nem sempre reconhecemos como nossos. Desde cedo, Sigmund Freud percebeu que os vínculos sociais não se sustentam apenas por ideias, ele mostrou que os grupos se organizam a partir de identificações afetivas, frequentemente centradas em uma figura de liderança ou em um ideal compartilhado. Essa intuição continua atual quando observamos fenômenos como o populismo contemporâneo, em que líderes carismát...

SABEDORIA DO FIM: COMO A DEPRESSÃO REVELA O QUE A ALEGRIA ESCONDE

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Será que erramos a mão? Esse vazio que teima em morar no peito, esse frio que não passa, pode não ser um desvio. Pode ser um chamado. Um chamado urgente e mudo da vida, nos arrastando para longe de tudo o que supostamente importava, para nos plantar no solo úmido do que somos. E ficar. Apenas ficar. Existe uma solidão que não clama por outra pessoa . É quando você se vira e se esbarra em si mesmo - um encontro violento com aquilo que você é quando ninguém está olhando, nem mesmo você. O barulho do mundo fica mudo. E o que sobra é um silêncio tão espesso que se sente nos ouvidos, na cabeça. É nesse deserto, nesse “estado de atenção para o vazio”, como disse Clarice Lispector (1977, p. 12), que algo começa. A realidade de todo dia, aquela dos cumprimentos, das ruas e dos mercados, se esfarela. Não há como segurá-la. No lugar, se levanta uma paisagem árida, mas de uma verdade que corta. As cores se vão, mas as formas ganham gumes. Você enxerga a costura grossa da existência, e ela arranh...

MEU MAIOR ERRO FOI DEIXÁ-LA. MINHA ÚNICA VERDADE É TRAZÊ-LA DE VOLTA

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Os vidros da sala de aula refletiam seu perfil, lá no fundo, e eu sentia que era observado de maneira sutil. Havia um sentimento de inquietação, pois o interesse dela atravessava, com aquele olhar, como uma flecha certeira, as muralhas da minha postura moralista, erguidas não por convicção, mas pelo medo da diferença de nossas idades. Ela não era como as outras; seu silêncio era uma pergunta insistente. Aquele olhar, persistente e sereno, começou a criar fissuras na superfície lisa dos meus dias. Era como se eu recitasse alguma poesia, mas era a sua presença quieta que dava um novo ritmo aos versos. O ar entre nós ficava denso, carregado de tudo o que não era dito. A batalha interior era constante: de um lado, o dever; do outro, um impulso profundo e desconhecido que ameaçava desorganizar tudo o que eu achava que conhecia. O amor, quando admitimos, não chegou como um trovão, mas como a compreensão súbita de uma verdade antiga. Foi em um lugar público, decorado por luzes como tochas da...

DEUS, RIQUEZA E GENOCÍDIO: OS CRIMES DO MUNDO QUE SE DIZ CIVILIZADO

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Em alguns casos, tem um certo homem te olhando de dentro da sua carteira, se você tem alguns dólares . Talvez você nunca tenha reparado. Talvez nunca tenha se perguntado por quê. O rosto é duro, sério, quase antipático: Andrew Jackson . Presidente, general, símbolo da expansão dos Estados Unidos. O rosto dele virou sinônimo de valor. Dinheiro. Estabilidade. Confiança. Mas quase ninguém pergunta quanto isso custou, e a quem. Jackson assinou, em 1830, a Lei de Remoção Indígena. O nome parece técnico, neutro. Não é. Foi a autorização legal para expulsar povos inteiros de suas terras. À força (a famigerada ameaça de sempre). O que veio depois ficou conhecido como a Trilha das Lágrimas. Cerca de quinze mil nativos Cherokees foram obrigados a caminhar. Quatro mil morreram no caminho. Frio, fome, doenças. Não é uma metáfora. É literal. E mesmo assim, o rosto dele continua ali, circulando de mão em mão. Em algum momento, aprendemos a achar isso normal. Ou, pelo menos, aceitável. Aprendemos a...

O DESTINO BIOLÓGICO E A RÉPLICA DO ESPÍRITO

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O início da vida não tem nada de solene. É um acontecimento físico, abrupto, feito de contrações, fluidos e urgência. Chegamos gritando, procurando ar, calor, alimento. Não há significado ali, apenas funcionamento. Pulmões se abrem, o coração acelera, o corpo reage como sabe reagir. Antes de qualquer ideia de identidade ou consciência, somos um corpo que precisa sobreviver. Somos pesados, medidos, observados. Já no primeiro instante, a vida se apresenta como aquilo que ela nunca deixa de ser: matéria em movimento. Esse corpo é o nosso primeiro território e, no fim das contas, o último. Tudo o que chamamos de pensamento, memória, imaginação ou afeto nasce dessa base instável, úmida, pulsante. A poesia, a filosofia e a fé vêm depois, como tentativas de dar forma e sentido a algo que começou sem nenhum deles. Viver é aprender a conviver com essa biologia insistente. A fome interrompe ideias elevadas, o cansaço limita planos, o desejo sexual impõe sua própria lógica. A doença, então, é o ...

A MORFINA DO CÉU: HUME E O SONHO DO ALÍVIO ETERNO

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A humanidade carrega um fardo insuportável: a consciência de si mesma, frágil e passageira, diante de um universo indiferente. A dor, física ou moral, é a assinatura dessa condição, um grito primário que ecoa no vazio. E foi nesse desespero ancestral, nesse pavor do acaso e do sofrimento, que o homem, engenhoso na sua fraqueza, forjou a sua mais poderosa e duradoura anestesia: a religião como promessa de um paraíso post-mortem. David Hume , aquele escocês de olhar penetrante e humor ácido, não via nisso a manifestação sublime do divino, mas o triunfo da esperança sobre a razão. Ele observou como a mente humana, assustada, projeta ordem onde há caos, desenha causas finais onde há apenas sequências cegas, e inventa agentes conscientes por trás dos fenômenos naturais mais corriqueiros. A religião, nesse sentido, nasce do medo, não da revelação. É um filho ilegítimo da ignorância e do terror perante a morte. O grande atrativo, o gancho que prende bilhões, é justamente a promessa de elimin...

ENTRE A CRUZ E A RAZÃO: A CONDENAÇÃO DOS QUE OUSAM PERGUNTAR

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A busca pelo divino é uma trilha solitária, aberta no deserto da alma humana. Desde que erguemos os primeiros altares, acreditamos estar construindo pontes para o céu, caminhos por onde os deuses poderiam descer até nós. No entanto, observando com frieza a paisagem da história, uma pergunta incômoda se impõe: e se, sem perceber, estivéssemos na verdade erguendo muros? Muros tão altos que, em vez de nos aproximar do mistério, nos isolam dele, confundindo a arquitetura do templo com a presença do sagrado. A cultura, em seu esforço nobre de dar forma ao inefável, pode se tornar a mais perfeita obstrução. Tomemos como exemplo os neoplatônicos, como Plotino ou Proclo . Para eles, o acesso ao Uno, ao Princípio primeiro além de todo ser, demandava uma ascese intelectual e espiritual rigorosa, um despojamento de todas as imagens, conceitos e até da linguagem comum (ARMSTRONG, 2013). Era uma jornada interior, negativa, que pressupunha a dissolução das certezas culturais para encontrar uma real...

A CASA DO POVO QUE SE TRANSFORMOU NA CASA DOS SONÂMBULOS

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Esta cada dia mais difícil de acreditar que temos um parlamento digno. A gente vota, espera, e o que acontece? Quem a gente elege parece sumir num labirinto de interesses que a gente nem consegue entender. E o pior: quando aparecem, é mais pra se defender do que pra nos representar.  Cadê a tal da democracia que deveria ser do povo? A verdade é que muitos dos nossos representantes acabam vivendo num mundo paralelo, muito particular. Enquanto muita gente se "vira nos trinta" pra pagar conta, eles brigam por cargos, benefícios e vantagens que nem passam pela nossa cabeça.  O mandato, que era pra ser uma prestação de serviço para o povo, vira trampolim para projetos pessoais.  E nós? Ficamos lá, assistindo bem de longe - e nem só o povo assiste de longe: agora, admite-se até exercício de mandato "de longe", com todos os privilégios, contando com a inércia e a passividade da sociedade, acreditando que protestar nas redes sociais tem mais força do que presença massiva na...