A CASA DO POVO QUE SE TRANSFORMOU NA CASA DOS SONÂMBULOS
Esta cada dia mais difícil de acreditar que temos um parlamento digno. A gente vota, espera, e o que acontece? Quem a gente elege parece sumir num labirinto de interesses que a gente nem consegue entender. E o pior: quando aparecem, é mais pra se defender do que pra nos representar. Cadê a tal da democracia que deveria ser do povo?
A verdade é que muitos dos nossos representantes acabam vivendo num mundo paralelo, muito particular. Enquanto muita gente se "vira nos trinta" pra pagar conta, eles brigam por cargos, benefícios e vantagens que nem passam pela nossa cabeça. O mandato, que era pra ser uma prestação de serviço para o povo, vira trampolim para projetos pessoais. E nós? Ficamos lá, assistindo bem de longe - e nem só o povo assiste de longe: agora, admite-se até exercício de mandato "de longe", com todos os privilégios, contando com a inércia e a passividade da sociedade, acreditando que protestar nas redes sociais tem mais força do que presença massiva nas ruas e acabar com os históricos e lamentavelmente ainda em voga "currais eleitorais."
Rousseau já alertava sobre isso no século XVIII: não adianta entregar nossa voz a outros e esperar que nos representem de verdade. No Do Contrato Social, ele é categórico: “a soberania não pode ser representada pela mesma razão que não pode ser alienada” (ROUSSEAU, 1762/2001, p. 89). A vontade do povo é viva - não pode ficar trancada em gabinetes.
E o resultado? Desconfiança, raiva, aquela sensação de que não adianta nem tentar. Você já se pegou pensando "pra que votar?" Pois é. Esse cinismo é o combustível dos extremismos. Quando a política vira sinônimo de trapaça, todo mundo perde.
Norberto Bobbio, em O Futuro da Democracia, falou sobre as promessas não cumpridas da democracia. Uma delas é que, em vez de acabar com as panelinhas no poder, o sistema criou novas (BOBBIO, 1984/1986, p. 34). Virou um clube fechado, onde os mesmos se protegem - e a gente fica do lado de fora.
E não é só no Brasil. Robert Putnam, nos EUA, mostrou em Bowling Alone como a desconfiança e o isolamento social fragilizam a democracia (PUTNAM, 2000, p. 45). Enquanto a gente não se une, lobistas e políticos profissionais seguem fazendo a festa.
Aí viram até o significado das palavras. O que é bom pra eles vendem como "progresso". O que é bom pra gente chamam de "populismo". Fica impossível saber em quem confiar.
Alguns acumulam processos, denúncias e, não é surpresa, nada acontece. Parece que existem duas leis: uma pra nós, outra pra eles. Isso corrói por dentro. Mostra que, pra certas pessoas, as regras não valem.
Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, já descrevia como no Brasil o público e o privado sempre se misturaram (FAORO, 1958/2000, p. 781), e atualmente, a farsa religiosa, onde se escondem os hipócritas que substituem a constituição do país por um "livro sagrado" também está no jogo. O Estado virou mesmo um balcão de negócios, onde até uma teologia medíocre interfere nas decisões progressistas, e o interesse geral fica em segundo plano. Os acordos são feitos na escuridão, nas "caladas da noite", pois os os que teoricamente deveriam nos representar, são sonâmbulos e muitas vezes as insônias parlamentares se tornam desculpa para processos escusos, a margem da ciência do populacho.
Será que a gente não está sendo ingênuo? Fingimos que a escolha a cada quatro anos nos torna donos do poder, mas será que não somos apenas espectadores de um teatro onde o roteiro já está escrito? Eles falam em "governar para o povo", mas será que não governam apesar do povo - desde que não atrapalhe seus projetos de poder?
E você: já parou pra pensar que, enquanto discute esquerda ou direita, eles fecham acordos nos bastidores que beneficiam a ambos - menos a nós? A polarização que nos consome é conveniente. Divide a gente enquanto eles seguem intocáveis, com seus privilégios intactos, rindo da nossa incapacidade de enxergar o jogo real.
Mas calma: a saída não é virar as costas. É exigir mais. Plebiscitos, referendos, transparência real. Precisamos cobrar sempre - não só de quatro em quatro anos. John Stuart Mill defendia que a participação política nos torna mais conscientes e menos egoístas (MILL, 1861/1985, p. 67). A solução? Acordar! Acabarmos com uma teocracia disfarçada em bancadas num parlamento que constitucionalmente deveria ser laico e romper com essa chaga retrógrada que assola o país.
Ref.:
BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1986.
FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro. 3. ed. rev. São Paulo: Globo, 2000.
MILL, John Stuart. Considerações sobre o Governo Representativo. São Paulo: Ícone, 1985.
PUTNAM, Robert D. Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. New York: Simon & Schuster, 2000.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. Porto Alegre: L&PM, 2001.

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