SABEDORIA DO FIM: COMO A DEPRESSÃO REVELA O QUE A ALEGRIA ESCONDE

Será que erramos a mão?

Esse vazio que teima em morar no peito, esse frio que não passa, pode não ser um desvio. Pode ser um chamado. Um chamado urgente e mudo da vida, nos arrastando para longe de tudo o que supostamente importava, para nos plantar no solo úmido do que somos. E ficar. Apenas ficar.

Existe uma solidão que não clama por outra pessoa. É quando você se vira e se esbarra em si mesmo - um encontro violento com aquilo que você é quando ninguém está olhando, nem mesmo você. O barulho do mundo fica mudo. E o que sobra é um silêncio tão espesso que se sente nos ouvidos, na cabeça. É nesse deserto, nesse “estado de atenção para o vazio”, como disse Clarice Lispector (1977, p. 12), que algo começa.

A realidade de todo dia, aquela dos cumprimentos, das ruas e dos mercados, se esfarela. Não há como segurá-la. No lugar, se levanta uma paisagem árida, mas de uma verdade que corta. As cores se vão, mas as formas ganham gumes. Você enxerga a costura grossa da existência, e ela arranha. É uma lucidez que queima, uma visão que, uma vez vista, não abandona mais nossos olhos.

E aí, a pergunta “para quê?” deixa de ser pensamento e vira um gosto na boca - um gosto de coisa enferrujada. Todas as certezas que empilhamos como tijolos - o amor, o trabalho, a felicidade - mostram as rachaduras. Elas não resistem ao vento que sopra do precipício. E ficamos inteiramente nus. Inteiramente nus diante do espanto de estarmos vivos. É um ser despojado aterrorizante. E sagrado.

Como não lembrar de Marco Aurélio (2019, p. 45), em seu discurso dramático contra as próprias sombras, buscando um eixo: “Tens poder sobre a tua mente - não sobre os eventos externos. Percebe isso, e encontrarás força.” A depressão seria a encarnação violenta desse conselho. Ela nos expulsa da mentira do controle e nos tranca no único lugar que nos resta: a nossa própria e devastada paisagem interna.

Mas que poder é esse que sobra? Não serve para erguer grandes construções. Serve apenas para derrubá-las. Serve para desconfiar de tudo, inclusive de nós próprios. A linguagem, nossa tábua de salvação, afunda. As palavras se esvaziam, viram cascas ocas. Aproximamo-nos daquilo que Wittgenstein (2021, p. 89) chamou de território do indizível: “Aquilo sobre o que não se pode falar, deve-se calar.

A depressão é esse silêncio forçado - uma rendição que não se escolhe, mas se aceita aos poucos, como quem aprende a respirar estando a se afundar.

E nesse calar, nesse "lugar algum" das palavras, algo teima em brotar. Não é alegria - está longe disso. É uma quietude que não nega a dor, mas a reconhece. Uma espécie de trégua entre o humano e o abismo. Um “sim” resignado diante da falha inevitável de tudo. Quando a luta acaba, você se senta ao lado do seu monstro e parece que ele também está cansado.

A vida, então, já não se parece com uma festa da qual fomos excluídos. Ela é algo mais denso, quase solene. A leveza se foi, mas nasceu uma gravidade nova, que prende os pés ao chão. Já não flutuamos na mentira das coisas. Estamos enraizados em nossa própria escuridão. E talvez seja só dali, desse lodo, que um novo olhar possa nascer - um olhar que não caça a felicidade, mas suporta a verdade.

Transcender, nesse contexto, não é ir em direção à luz, mas descer. É cavar até uma camada mais funda do real. A depressão seria o túnel - estreito, sem ar e agonizante - que não leva a um lugar melhor, mas a um lugar mais verdadeiro. Uma dimensão onde a vida não é um presente, mas um interminável ponto de interrogação. E viver é morar nessa pergunta.

E quando você é a pergunta - e não mais a resposta - o mundo muda de textura. A sensibilidade fica em carne viva. Um pôr do sol pode não trazer alegria, mas uma comoção funda, quase insuportável. Uma xícara de chá quente entre as mãos deixa de ser um simples objeto: é a prova de que ainda existe calor no universo. São triunfos secretos, mudos, que quase ninguém entende.

Longe de mim fazer da dor um ornamento. Ela é uma prisão de concreto. Mas há quem encontre, arranhado na parede de uma cela, um mapa. Um mapa que só aparece a quem está completamente perdido. A depressão, nesse sentido terrível, é uma mestra impiedosa que, ao nos tirar tudo, ensina o valor infinito de um raio de sol na pele, ou do som da respiração no escuro.

No fim, a pergunta ecoa, sem resposta. Será este o caminho? Não sei. A única coisa que fica é que, depois do fundo, a vida nunca mais será vista com os mesmos olhos. Ela se torna um livro escrito em um idioma de sombra, que só se entende tateando na escuridão.

E talvez, apenas talvez, esse seja o seu mais cru e legítimo presente: fazer de nós pessoas capazes de decifrar o próprio anoitecer.




Ref.:
LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1977.
AURÉLIO, Marco. Meditações. São Paulo: Editora 34, 2019.
CLIMACO, João. Escada do Paraíso. São Paulo: Paulus, 2019.
FRANKL, Viktor E. Man's Search for Meaning. Boston: Beacon Press, 2006.
SOLNIT, Rebecca. A Field Guide to Getting Lost. New York: Penguin Books, 2005.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2021.


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