O 'EU TE AMO PAI' QUE A DOR NÃO ME DEIXA ESQUECER

A lembrança seguida de dor é inevitável. Mas não se trata de uma lembrança ocasional. Ela partiu num dia de outono no hemisfério sul, no dia 22 do mês de maio, quando as folhas já ensaiavam sua última dança, antes de adormecerem nas profundezas da terra. Na tradição Xamânica, diz-se que a hora do dia é a meia-noite; que na proximidade do inverno, tudo parece adormecer. Revisamos nossas conquistas e objetivos, exercitamos a paciência e nos preparamos para ciclos de morte e renascimento e que o outono retira a luz do sol do verão, faz as folhas verdes desaparecerem e transforma a paisagem em um cenário árido. O inverno elimina as pastagens com seu frio, deixando tanto os animais quanto os humanos mais vulneráveis. A primavera acaba com a frieza, e as cheias arrancam árvores e aterros ao longo dos rios. O dia mais extenso compacta as noites escuras e dissipa o frio do inverno. O sol do verão resseca a terra e gradualmente evapora a água e as pastagens. O verão encerra a primavera e sucumbe no outono. E ela sucumbiu num outono de pavor, de escuridão, na calada do amanhecer, que antecedeu aos augúrios de uma coruja...como um aviso.

Foi uma partida súbita, mas ao mesmo tempo, uma maré lenta e inexorável que foi roubando sua luz, minuto após minuto, até ela completar seus 10 anos, cativa numa cama de hospital, onde o "parabéns pra você e muitos anos de vida" do dia 12, já não representava mais nada. Só restou a espuma na areia. Eu, o pai, espectador impotente dessa vela que se apagava, tinha as mãos atadas e o coração desfiando-se como um novelo de lã velho. Cada respiro meu era um eco do respiro cansado dela, cada esperança, um frágil barco num oceano de incertezas. A leucemia era uma sombra que não apenas a envolvia, mas pintava as paredes da minha vida com um cinza que eu não podia nomear.

Os dias fundiram-se numa única e longa noite vigiada, pontuada pelo som dos aparelhos, das marcas roxas que a doença exibia, das injeções, do soro interminável, tudo num ritmo mecânico que tentava, em vão, ditar o compasso de um corpo que só queria ser livre. Eu lia histórias de mundos coloridos, fantasias cheias de esperanças, enquanto o mundo se reduzia àquele quarto branco. Nos intervalos do sofrimento, um sorriso fraco dela era como um sol que nascia e se punha num piscar de olhos, naqueles olhos verdes, uma joia rara guardada a sete chaves no cofre da minha memória. Eu aprendi a linguagem do silêncio, a decifrar a dor nos olhos dela, a encontrar universos inteiros no simples tocar de sua mão. Em 16 dias, nada mais consegui encontrar. Perdi a fé, o que restava de minha humanidade e uma dor imensa de instalou como uma doença crônica, que sabia que iria perdurar enquanto eu vivesse. 

Naquele momento, tomei no colo uma pequena criança, cuja mãe, no sofrimento, não podia se ausentar do quarto. Era também uma menina, de uns 5 meses. Não vi tristeza em seus olhos. Vi uma vida se esvaindo inocentemente e me perguntei: isso é justo? Por onde andam os deuses?

Lao Tzu disse que uma viagem de mil milhas começa com um único passo. Mas ele não dissera como é longo o caminho de volta quando o destino é a perda. Eu dei esse primeiro passo ao sair do hospital pela última vez, com os braços vazios e a alma em frangalhos, faminto por encontrar sentido, quando sabia que tudo estava perdido. O mundo lá fora continuava, absurdamente vivo, e cada riso que ouvia era um punhal, cada criança correndo, um fantasma do que poderia ter sido. A finitude, da qual sempre soube teoricamente, instalou-se em minha casa, um hóspede pesado e silencioso que nunca mais se foi.

O tempo, que todos dizem tudo curar, para mim se tornou um líquido grosso, uma âmbar que me prendeu naqueles dezesseis dias de maio. Eu não vivia mais no presente; habitava em mim um museu de lembranças onde cada objeto se tornou um artefato sagrado do sofrimento. O copo de água que ela bebeu, sua vontade de andar de patins,, com as promessas de cura, que no fundo, já sabia que não seria possível. Os livros que leu na última semana de sol, os vários desenhos que fiz no papel e os colei nas paredes do quarto do hospital, enquanto eu a ouvi dizer com a voz suave: "te amo, pai". São relíquias de um culto particular à dor, a mim, que me tornei um ser solitário, que tem medo de esquecer um único detalhe, seja uma segunda traição, um segundo adeus.

Buda ensina que a raiz do sofrimento é o apego. Eu o leio, eu admiro seus ensinamentos, eu compreendo a sabedoria milenar. Mas meu coração, esse órgão teimoso, recusa-se a soltar a corda. Apegar-se à dor tornou-se a forma de apegar-se à ela. A angústia é o laço que ainda nos une, um fio tenebroso e forte que o mantém preso à filha que se foi. Abrir mão desse sofrimento por mais que pareça paradoxal, é como abrir mão do amor que lhe dediquei até o último segundo.

Algumas manhãs, eu me sento na pequena varanda do apartamento, lembrando daquela menina de cabelos encaracolados, sentada na cadeira, talvez ansiosa por um abraço, de olhos vívidos, com suas risadas. E, em várias noites, vejo sempre aquela cadeira vazia, no sopro indiferente que vem do mar, e meu olhar distante para os navios que chegam e partem, como se um peso invisível insistisse em existir. É nesses momentos que a fronteira entre o passado e o presente se dissolve. Eu quase posso ouvir o eco de sua voz, um sussurro que se confunde com o fraco barulho das folhas. É um momento de paz agonizante e de uma saudade que corta mais fundo que a lâmina mais afiada.

Eu aprendi que a morte não é um evento, mas um estado. Não aconteceu apenas naquele 22 de maio, do outono; se prolonga, estende seus tentáculos para todos os dias que se seguiram. 

Morro a cada manhã ao acordar. Morro a cada final de tarde. Morro a cada final de noite, ao tentar dormir. Morro ao preparar uma xícara de café. Morro ao ver o mundo seguir seu curso, indiferente ao meu universo particular que entrou em colapso. É preciso estar consciente de que tudo à nossa volta é temporário, finito e, ao mesmo tempo, precioso.

Pensadores budistas falam de samsara, o ciclo de sofrimento e renascimento. Eu não sei se acredito em renascimento, mas acho que conheço intimamente o ciclo. Renasce a cada dia no mesmo papel: um ser humano que perdeu parte de si. É um renascer na mesma dor, uma roda que gira constantemente sobre o eixo da sua memória. A libertação, o nirvana, me parece uma terra distante, inalcançável para quem escolheu, inconscientemente, habitar o templo da sua própria perda.

O amor que eu ainda sinto por ela é um oceano. A doença foi uma tempestade que o agitou, e a morte, a calmaria que se seguiu, mas uma calmaria de águas paradas e silenciosas, onde o barco da minha sanidade ficou à deriva. Eu sei, num lugar profundo do meu ser, que a homenagem mais pura seria navegar novamente, encontrar correntes de vida que possam honrar o seu pequeno tempo de vida, da sua brevidade, da existência dela. Mas o mar está quieto demais, e os remos, pesados demais para minhas mãos cansadas, que não já mais suportam navegar a procura de uma resposta.

E assim, porquê ainda insisto em permanecer? Um homem e suas sombras. Uma varanda e uma cadeira vazia. Um "eu te amo pai" dito nos seus ultimos dias, com aquela sonoridade característica que eu sabia que era uma declaração que vinha do fundo de uma criança sensível. Uma vida que foi profundamente alterada pelo amor mais intenso e pela perda mais devastadora, que teima em não se curar, mas permanecer, como quem tatua na pele uma frase. A minha história não é sobre superação, mas sobre existência com a ausência. É um testemunho mudo de que todos somos feitos de memórias, e que algumas delas, por mais que doam, são a prova incontestável de que amamos e fomos amados. E que, no fim, talvez seja isso que nos torna finitos e, de alguma forma, infinitos. Era para que eu fosse memória para meus filhos; mas neste caso, ela deixou a memória no vazio. lá bem no fundo daquilo que não consigo ser hoje. É sentar na varanda e imaginar, ao sabor do vento que passou.

Agora, chegando próximo ao final do outono, começo do inverno, decidi escrever, pois a estação das flores já se foi, e as flores nos lembram vida, agora sempre trazem lembrança de perdas, quando vem o vento e deixa somente restos. O "eu te amo, pai", na agonia das últimas horas, ressoa até hoje, para onde quer que eu vá. Não há cura, não há remédio. Só existe choro em dias nublados ou não, no cantinho da varanda, esperando que o mar, no retroceder da maré, possa trazer alívio, permitindo que eu veja as conchas que tanto ela gostava em guardar.

Há tempos, as conchas que o mar me permite recolher, são como fotografias, que marcam lembranças, que nenhum remédio, humano ou sagrado consegue curar. Eu só preciso evitar de procurar sentido na vida e lembrar daquele sorriso, sem me esquecer dos que eu tenho ainda a minha volta. Isso me faz lembrar os filósofos existencialistas Jean-Paul Sartre e Albert Camus, quando disseram que a morte é uma parte essencial da condição humana; que ao reconhecermos que a morte é inevitável, somos confrontados com a responsabilidade de criar nosso próprio sentido e propósito na vida. Então, a morte nos lembra da importância de vivermos de forma autêntica e corajosa, enfrentando o absurdo da existência com dignidade.

Por enquanto, ainda não tenho certeza se consigo.




Em algum momento, para inspiração, utilizei como referência:

KUBLER-ROSS, Elisabeth. On Death and Dying. Scribner, 1969.
HANH, Thich Nhat. No Death, No Fear: Comforting Wisdom for Life. Riverhead Books, 2002.

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Comentários

  1. Sinta um abraço apertado, como sente a brisa vinda do mar tocar seu rosto.

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