MEU MAIOR ERRO FOI DEIXÁ-LA. MINHA ÚNICA VERDADE É TRAZÊ-LA DE VOLTA
Os vidros da sala de aula refletiam seu perfil, lá no fundo, e eu sentia que era observado de maneira sutil. Havia um sentimento de inquietação, pois o interesse dela atravessava, com aquele olhar, como uma flecha certeira, as muralhas da minha postura moralista, erguidas não por convicção, mas pelo medo da diferença de nossas idades. Ela não era como as outras; seu silêncio era uma pergunta insistente.
Aquele olhar, persistente e sereno, começou a criar fissuras na superfície lisa dos meus dias. Era como se eu recitasse alguma poesia, mas era a sua presença quieta que dava um novo ritmo aos versos. O ar entre nós ficava denso, carregado de tudo o que não era dito. A batalha interior era constante: de um lado, o dever; do outro, um impulso profundo e desconhecido que ameaçava desorganizar tudo o que eu achava que conhecia.
O amor, quando admitimos, não chegou como um trovão, mas como a compreensão súbita de uma verdade antiga. Foi em um lugar público, decorado por luzes como tochas da Idade Média, que sempre as vejo acesas quando me lembro. As promessas que fizemos ali nasceram da certeza absoluta de que havíamos encontrado nossa alma gêmea. Falávamos de futuros intemporais, de um lugar só nosso, longe de todos os olhares. Ela, com sua fé de jovem, acreditava que o amor era força suficiente para dobrar a realidade.
O mundo, porém, é um mestre em criar obstáculos. O sussurro dos encontros tornou-se um vento cortante. As adversidades da vida foram uma gaiola que se fechou rapidamente. Nosso afastamento não teve a dignidade de um adeus; foi uma erosão lenta e dolorosa, uma série de pequenas retiradas forçadas até que o contato se rompeu por completo. Foi embora, levando consigo a luz.
Anos se arrastaram, pesados como pedras molhadas. Estar casado foi como encontrar abrigo em um portal desconhecido: havia proteção contra as tempestades, mas não contra aquele olhar, aquele sentimento em que pedras foram erguidas, mas que nunca construíram muros para a solidão, pois as paredes nunca absorveram o calor dos meus sonhos. Imagino que, para ela, não tenha sido muito diferente: uma vida construída sobre o alicerce sólido da conveniência e da resignação. Seguimos em paralelo, vidas aparentemente completas, mas com um quarto vazio, sempre reservado no centro do peito, de uma cama coberta de flores e de esperanças, apenas esperando por uma palavra: fica!
O primeiro reencontro, anos depois, não foi em uma cidade estranha, mas justamente na dela. Eu cheguei ao local, e lá estava ela, como se o tempo tivesse dobrado sobre si mesmo. Meu mundo parou. A princípio, talvez dez anos se condensaram, pela primeira vez, no espaço de um suspiro. Não trocamos mais do que algumas palavras triviais, mas cada sílaba era um verso do poema interrompido. A chama que eu julgara extinta era apenas uma brasa sob as cinzas, e aqueles dias foram como um sopro, mas suficiente para reavivá-la.
Em seu corpo, eu podia observar o temor, uma fina camada de esperança, uma linha do tempo que a tornava resiliente, mas de profunda inquietude. E foi preciso partir.
A partir daí, a busca incessante renasceu. Encontros roubados ao tempo, breves como um piscar de luz na escuridão. Numa tarde, próximo ao Ano-Novo, quando a encontrei pelas redes sociais, ela disse palavras que me cortaram e me costuraram ao mesmo tempo. Fui para longe, para as terras dos navegantes; atravessei o oceano, mas minha alma, teimosa, se agarrou aos pilares daquela terra quente e de solo vermelho.
Um dia, ela escreveu. Mesmo sem eu tê-la visto, acredito que foi com os olhos fixos no horizonte embaçado que disse não estar mais disposta a continuar… mas aceitava que havia correntes que a prendiam. Que estava preparando o terreno para um novo êxodo, só dela, em nossa direção. Era a promessa mais perigosa e mais linda.
Havia medo, mas havia esperança. Eu sempre me lembrava do filósofo Plutarco, que certa vez escreveu: “O maior e mais velho amor é o amor pela vida.” E ela era tudo o que isso significava, vencendo a barreira da idade. O amor nunca envelhece, nunca se mede, pois só é sentido; ele está fora do tempo.
Agora, vivemos na angústia peculiar da espera. Cada dia é uma página em branco que pode ser preenchida com a notícia de sua libertação ou com um novo obstáculo. Meu telefone, antes um objeto banal, transformou-se em um artefato de ansiedade: cada vibração pode ser a mensagem que muda tudo ou o silêncio que prolonga o purgatório.
A espera é um fio de navalha sobre o qual caminhamos todos os dias. Gibran, o grande poeta, pode explicar melhor isso quando disse: “Quando o amor o chamar, siga-o, ainda que suas maneiras sejam duras e íngremes; e quando as asas dele o abraçarem, renda-se, embora a espada escondida dentro de suas penas possa feri-lo. E quando ele lhe falar, acredite nele… ainda que a voz dele possa despedaçar seus sonhos, como o vento frio do norte devasta o jardim florido…”
Nosso amor amadureceu em algo complexo e resistente. Já não é apenas a paixão da descoberta, mas a escolha consciente e teimosa de duas vidas que se reconhecem como partes de um mesmo todo. As promessas da juventude foram refundidas no fogo da paciência adulta. Sabemos o que queremos, mas o caminho até lá é um labirinto cujos muros são feitos das vidas e dos sentimentos alheios.
Às vezes, na calada da noite, o medo visita. O medo de que algo a faça recuar, de que a coragem necessária para o rompimento definitivo se esvaneça diante do custo emocional. O medo de que, depois de tanto esperar, o encontro permanente ainda seja uma miragem. Esses pensamentos são sombras que tento afastar com a memória da luz em seus olhos quando fala do nosso futuro.
E assim seguimos, presos no intervalo entre o sonho e a concretude. Vivemos de memórias antigas e da promessa futura, enquanto o presente é uma espécie de terra de ninguém, um território provisório que anseia por se tornar um lugar eterno. Nossos encontros furtivos são como respiros para um náufrago: mantêm a esperança viva, mas também aguçam a dor da separação.
A história não terminou. Está suspensa, como a nota final de uma canção que ainda não encontrou seu repouso. Caminhamos na corda bamba, olhando para a frente, sustentados apenas pela fé teimosa de que o amor, quando é verdadeiro e profundo, não erra seu destino final. Ele apenas desenha rotas mais longas e tortuosas para nos ensinar o valor absoluto da chegada. Eu só espero que não seja tarde demais.
Embora eu seja um teimoso ateu, faz-se necessário lembrar a passagem da história bíblica de Josué , quando, na batalha, orou ao seu Deus pedindo que “parasse” o Sol, para que seu exército lograsse mais tempo para vencer (Josué 10:12-14).
Eu só peço aos deuses que, por um momento apenas, que parem o tempo, para que tenhamos tempo de viver com toda a intensidade a nossa história e para que eu possa trazê-la de volta de onde nunca deveria ter saído.
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Se o tempo parasse só para que esse amor pudesse ser plenamente vivido, com sorrisos, toques, olhares. Partilhar a felicidade do encontro. Torço por esses dois!
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