O MERCADO DA HIPOCRISIA ESPIRITUAL NA ERA DO ESPETÁCULO
Há uma quietude perigosa que se instalou no coração do devocional moderno, uma espécie de anestesia da alma que preferimos chamar de fé. Não aquela fé inquieta, que busca e questiona, mas uma fé-bálsamo, uma fé-analgésico, desenhada não para iluminar os abismos da condição humana, mas para diligentemente ignorá-los. Escolhemos, coletivamente, a fé que tranquiliza em vez da razão que preocupa, trocando a angústia existencial por um conforto embalado a placebo celestial. É uma transação espiritual onde a moeda é a própria lucidez.
Podemos encontrar um eco literário preciso dessa fuga no universo de Emma Bovary. Sua queda não começa no adultério, mas na recusa radical do ordinário, no desejo desesperado de que a vida fosse um romance repleto de paixões intensas e significados elevados. A alienação bovariana é, em sua essência, uma recusa de si mesma e do mundo real, em prol de uma ficção mais palatável. Nossa alienação espiritual contemporânea opera com a mesma lógica: renunciamos à complexidade áspera do real, à miséria material e espiritual que nos cerca, para nos refugiarmos em narrativas sobrenaturais que nos absolvem da responsabilidade de pensar e de agir.
O filósofo esloveno Slavoj Žižek (2017) nos alerta, com sua verve característica, que a verdadeira crise é quando não conseguimos mais nos confrontar com o real, preferindo a fantasia organizada. A religião, em sua versão hipócrita, torna-se o grande mecanismo de defesa coletivo, uma fantasia sistematizada que nos permite funcionar sem jamais tocar no núcleo traumático de nossas contradições sociais e pessoais. A fé, aqui, não é o ópio do povo no sentido de simples consolo, mas no sentido de um narcótico que permite a exploração continuar sem o ruído desagradável da revolta.
Caminhe pelos centros de poder ou observe os palanques. O sobrenatural foi cooptado e agora serve de lastro para as certezas mais dogmáticas. A política já não debate apenas projetos, mas se alimenta de cruzadas. A análise concreta das forças materiais é substituída por um maniqueísmo cósmico, onde o adversário não está simplesmente errado, mas é encarnação do mal, um obstáculo em uma missão divina. Essa politização do transcendente é o ápice da hipocrisia, pois veste ambições terrenas com as vestes da eternidade.
Observe-se o ritual. No Muro das Lamentações, vê-se o devoto judaico, muitas vezes da tradição loubavitch, balançar o corpo num vai-e-vem rítmico e intenso, uma oração que é quase um mergulho físico na lamentação. É um gesto de entrega total, que pode parecer alienado a um olhar externo, mas que contém uma chave de abandono do eu ao texto e à história. Esse mesmo olhar externo pode se espantar com o ajoelhar cristão, com a repetição mecânica dos gestos. O espanto, porém, é sintoma da nossa época: já não compreendemos a linguagem do corpo que se dobra, que se reconhece pequeno diante de algo que julga maior.
O que há em comum entre o balançar frente à pedra e o ajoelhar-se frente ao altar? Talvez uma mesma intuição, ainda que distorcida pelas instituições: a de que o "eu" autossuficiente é uma ilusão moderna. O sociólogo Zygmunt Bauman (2013), ao descrever a "sociedade líquida", identificou a fragilidade dos laços e a busca por formas sólidas em um mundo fluido. A religião hipócrita oferece uma solidez falsa, uma comunidade de aparência, onde a conexão verdadeira é sacrificada em prol da identidade tribal e do ritual vazio.
A miséria espiritual de que falamos não é a ausência de um deus, mas a renúncia de nós mesmos. É a troca da aventura interior, arriscada e solitária, pelo pacote completo de respostas pré-fabricadas. Renunciamos ao fardo da liberdade, tão bem explorado por Dostoiévski, para obedecer a regras que simulam uma ordem. A hipocrisia reside em fingir que essa obediência nasce de uma convicção profunda, quando muitas vezes nasce apenas do pavor ao vazio e da preguiça intelectual.
A fé tranquilizadora é, portanto, um produto do mercado. Ela é vendida em megatemplos, transmitida em canais dedicados, resumida em postagens inspiradoras. Seu valor de uso é claro: reduz a ansiedade. Seu valor de troca: fidelidade, dízimos, votos, influência. O teórico da comunicação Douglas Rushkoff (2020) argumenta que somos programados por essas narrativas, tão imersos nelas que perdemos a capacidade de ler o código por trás das mensagens. A religião-mercadoria nos programa para consumir esperança, não para gerá-la a partir da ação transformadora.
E assim, a alienação se completa. Alienamo-nos do nosso poder de crítica, da nossa capacidade de duvidar, da nossa responsabilidade histórica. A culpa pelos males do mundo é atribuída a forças demoníacas ou a desvios morais de grupos específicos, nunca às estruturas econômicas e sociais que sustentam o sofrimento. O sobrenatural serve, assim, como cortina de fumaça para o muito natural interesse de manter privilégios e poderes intocados.
O pensador francês Michel Foucault (1984) mostrou como o poder não se exerce apenas pela repressão, mas pela produção de verdades e subjetividades. A religião hipócrita é um dispositivo poderosíssimo de produção de subjetividade: ela produz o sujeito obediente, o sujeito que teme o questionamento, o sujeito que busca no pastor, no rabino, no líder espiritual, a autoridade última para seus atos, esvaziando-se de autonomia. A renúncia de si é, no fundo, a entrega de si mesmo a um sistema de controle simbólico.
E na política? Voltemos à ela, esse campo agora infestado de certezas sobrenaturais. Quando um projeto de lei é defendido não por sua utilidade social, mas por sua suposta consonância com um desígnio divino, estamos diante da morte do debate democrático. A negociação, própria da esfera humana, cede lugar à imposição, que se diz de origem celestial. É a tirania vestida de sagrado, a mais perigosa de todas, pois seu crítico automaticamente se torna um blasfemo, um herege.
A leve referência a Madame Bovary nos persegue. Emma morreu envenenada pelo arsênico que era a materialização de seus sonhos impossíveis. Nós, coletivamente, corremos o risco de morrer intoxicados pelo arsênico espiritual das certezas absolutas, que envenena o poço do diálogo, da ciência, da compaixão laica. A fantasia religiosa, quando hipócrita, quando instrumental, é um veneno que paralisa.
Não se trata, claro, de defender um ateísmo agressivo ou de negar a legítima busca do mistério. Trata-se de denunciar o uso corrupto dessa busca. A verdadeira espiritualidade, seja ela teísta ou não, deveria incomodar. Deveria nos tirar da zona de conforto, colocar-nos frente ao espelho de nossas contradições, impelir-nos para uma ação ética no mundo. Deveria ser razão que preocupa, não fé que anestesia.
A imagem do loubavitch no Muro e do cristão no genuflexório permanece. Talvez a saída não seja o espanto diante do ritual alheio, mas a capacidade de discernir, em qualquer ritual, o que é expressão genuína de uma entrega que não se renuncia a si, e o que é repetição vazia, adesão hipócrita a uma tribo, fuga da miséria espiritual para uma promessa de prosperidade oca.
Ao final, a provocação que fica é esta: teremos coragem de trocar a fé tranquilizadora, que nos mantém dóceis e alienados, pela razão preocupante que nos chama à responsabilidade? Teremos a coragem de encarar a miséria espiritual não como um buraco a ser tapado com dogmas, mas como o ponto de partida para uma reconstrução de nós mesmos, sem a muleta do sobrenatural político e mercantil? A resposta, individual e coletiva, definirá se merecemos um destino diferente do de Emma Bovary.
O tempo presente clama por uma revolução da consciência, uma que seja capaz de separar o trigo do mistério autêntico do joio da hipocrisia organizada. Só assim, talvez, possamos parar de balançar diante de muros e de nos ajoelhar diante de espelhos, e começarmos, finalmente, a caminhar com os próprios pés, sobre o chão duro e real que compartilhamos.
Ref.:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
RUSHKOFF, Douglas. Team Human. Nova York: W.W. Norton & Company, 2020.
ŽIŽEK, Slavoj. O Coração Incorruptível da Crença. In: O Sujeito Incômodo: a ausência do centro político. São Paulo: Boitempo, 2017.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. São Paulo: Editora 34, 2017.
FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.

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