O ECO DO VAZIO: POR QUE TEMEMOS O FIM SE ACREDITAMOS NO PARAÍSO?

Há uma inquietação que não cala, um sussurro no osso. A gente passa a vida toda construindo uma certeza sobre o amanhã, mas é esse mesmo amanhã que um dia vai nos faltar. O curioso é observar como esse pavor horrívell do fim, do nada, consegue dividir espaço no peito com a crença mais tranquila em um paraíso, uma vida eterna sem dor. Como é que a gente pode, ao mesmo tempo, tremer diante da morte e cantar glórias ao céu?

Penso que esse medo não é covardia. É uma resposta quase biológica à consciência mais desconcertante que temos: a de que somos meros passageiros. O filósofo Martin Heidegger cutucou essa ferida quando falou que somos um "ser-para-a-morte". Soa muito mórbido, mas a intuição por trás é aguda. A morte não é um acidente no fim da estrada; ela é a própria estrada. É porque sabemos que o caminho termina que cada paisagem, cada curva, ganha um brilho doloroso e precioso.

E as religiões, ah, as religiões... Elas foram nossas primeiras e mais geniais cartógrafas do terreno desconhecido. Diante do vazio, elas desenharam mapas dourados de paraísos, jardins e reencontros. Ofereceram a resposta mais elegante para o terror da finitude: a morte não é o fim, é a porta de entrada. É o alívio prometido para toda a dor do mundo. Um antídoto, para todos os gostos, em forma de esperança.

Só que o corpo, às vezes, é mais sábio do que a crença. Você já notou como o luto machuca mesmo quando a fé é forte? Como o adeus a alguém que partiu para uma "vida melhor" pode ser um rompimento tão brutal? É que a promessa do céu habita na nossa mente, num lugar das ideias. Mas o apego, o cheiro, o calor da mão, o som da risada... isso habita na carne. A fé fala de uma terra que nunca pisamos; o medo é de perder o chão que já conhecemos, com todas as suas pedras e flores.

É uma tensão desgraçada. Kierkegaard, um sujeito que entendia de dramas interiores, via a fé não como um porto seguro, mas como um salto no escuro, dado com o coração aos trambolhões. Crer, para ele, não era estar livre da angústia; era decidir viver apesar dela. O devoto não é aquele que não sente medo, mas aquele que, com o medo gelando a espinha, dá o passo.

Se olharmos para alguém como Sartre, ateu e desassombrado, a coisa fica ainda mais interessante. Ele diria que inventar deuses e paraísos é uma forma de "má-fé", uma fugida covarde da nossa liberdade angustiante. Se não há dono do universo, a responsabilidade de criar significado é toda nossa, e isso assusta mais do que o próprio nada. Talvez a gente tema a morte porque é o fim do único projeto que realmente nos pertence: a nossa própria vida.

Mas será que é só isso? Às vezes sinto que é algo mais profundo, quase animal. Um instinto cego de querer permanecer, de não ser apagado. A crença no além seria então a nossa consciência tentando negociar com esse instinto, oferecendo um salvo-conduto quando o corpo já não tem mais jeito.

É o medo do apagamento total. De que tudo o que fomos, todas as memórias, os amores secretos, as vergonhas tolas, simplesmente se dissolvam no esquecimento. As religiões que prometem a alma eterna não prometem apenas vida, mas a permanência do "eu". É a garantia de que nossa história íntima não será deletada.

Hoje em dia, a gente empurra a morte para longe, escondemos ela em hospitais e funerárias. Tornou-se um tabu. E no silêncio em torno dela, o medo cresceu. A crença, por sua vez, agora precisa sobreviver num mundo que pede provas para tudo. O salto de fé de que falava Kierkegaard nunca precisou ser tão grande.

E daí, o que a gente faz com esse nó na garganta? Talvez a saída não seja desatá-lo, mas aprender a conviver com ele. Essa dualidade não é uma falha de fabricação da alma humana; é o que nos move a criar arte, a buscar beleza, a amar com mais intensidade. A sombra do fim é que pinta a vida com cores mais vivas.

No fim das contas, caminhamos nessa corda bamba. Entre o que sabemos (que um dia acabamos) e o que esperamos (que, quem sabe, não acabemos). Entre o medo que nos agarra à terra e a fé que nos lança ao céu. Reconhecer isso não é fraqueza, é a mais pura verdade. A vida é valiosa porque é finita. E a crença no eterno é, no fundo, um tributo maravilhoso e triste ao incrível valor que damos a este frágil, efêmero e precioso milagre de existir.





Ref.:
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Parte I. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.
KIERKEGAARD, Søren. O Conceito de Angústia. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2019.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MORIN, Edgar. O Homem e a Morte. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1997.
JUNG, Carl G. Psicologia e Religião. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.

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