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MEU MAIOR ERRO FOI DEIXÁ-LA. MINHA ÚNICA VERDADE É TRAZÊ-LA DE VOLTA

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Os vidros da sala de aula refletiam seu perfil, lá no fundo, e eu sentia que era observado de maneira sutil. Havia um sentimento de inquietação, pois o interesse dela atravessava, com aquele olhar, como uma flecha certeira, as muralhas da minha postura moralista, erguidas não por convicção, mas pelo medo da diferença de nossas idades. Ela não era como as outras; seu silêncio era uma pergunta insistente. Aquele olhar, persistente e sereno, começou a criar fissuras na superfície lisa dos meus dias. Era como se eu recitasse alguma poesia, mas era a sua presença quieta que dava um novo ritmo aos versos. O ar entre nós ficava denso, carregado de tudo o que não era dito. A batalha interior era constante: de um lado, o dever; do outro, um impulso profundo e desconhecido que ameaçava desorganizar tudo o que eu achava que conhecia. O amor, quando admitimos, não chegou como um trovão, mas como a compreensão súbita de uma verdade antiga. Foi em um lugar público, decorado por luzes como tochas da...

DEUS, RIQUEZA E GENOCÍDIO: OS CRIMES DO MUNDO QUE SE DIZ CIVILIZADO

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Em alguns casos, tem um certo homem te olhando de dentro da sua carteira, se você tem alguns dólares . Talvez você nunca tenha reparado. Talvez nunca tenha se perguntado por quê. O rosto é duro, sério, quase antipático: Andrew Jackson . Presidente, general, símbolo da expansão dos Estados Unidos. O rosto dele virou sinônimo de valor. Dinheiro. Estabilidade. Confiança. Mas quase ninguém pergunta quanto isso custou, e a quem. Jackson assinou, em 1830, a Lei de Remoção Indígena. O nome parece técnico, neutro. Não é. Foi a autorização legal para expulsar povos inteiros de suas terras. À força (a famigerada ameaça de sempre). O que veio depois ficou conhecido como a Trilha das Lágrimas. Cerca de quinze mil nativos Cherokees foram obrigados a caminhar. Quatro mil morreram no caminho. Frio, fome, doenças. Não é uma metáfora. É literal. E mesmo assim, o rosto dele continua ali, circulando de mão em mão. Em algum momento, aprendemos a achar isso normal. Ou, pelo menos, aceitável. Aprendemos a...

O DESTINO BIOLÓGICO E A RÉPLICA DO ESPÍRITO

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O início da vida não tem nada de solene. É um acontecimento físico, abrupto, feito de contrações, fluidos e urgência. Chegamos gritando, procurando ar, calor, alimento. Não há significado ali, apenas funcionamento. Pulmões se abrem, o coração acelera, o corpo reage como sabe reagir. Antes de qualquer ideia de identidade ou consciência, somos um corpo que precisa sobreviver. Somos pesados, medidos, observados. Já no primeiro instante, a vida se apresenta como aquilo que ela nunca deixa de ser: matéria em movimento. Esse corpo é o nosso primeiro território e, no fim das contas, o último. Tudo o que chamamos de pensamento, memória, imaginação ou afeto nasce dessa base instável, úmida, pulsante. A poesia, a filosofia e a fé vêm depois, como tentativas de dar forma e sentido a algo que começou sem nenhum deles. Viver é aprender a conviver com essa biologia insistente. A fome interrompe ideias elevadas, o cansaço limita planos, o desejo sexual impõe sua própria lógica. A doença, então, é o ...

A MORFINA DO CÉU: HUME E O SONHO DO ALÍVIO ETERNO

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A humanidade carrega um fardo insuportável: a consciência de si mesma, frágil e passageira, diante de um universo indiferente. A dor, física ou moral, é a assinatura dessa condição, um grito primário que ecoa no vazio. E foi nesse desespero ancestral, nesse pavor do acaso e do sofrimento, que o homem, engenhoso na sua fraqueza, forjou a sua mais poderosa e duradoura anestesia: a religião como promessa de um paraíso post-mortem. David Hume , aquele escocês de olhar penetrante e humor ácido, não via nisso a manifestação sublime do divino, mas o triunfo da esperança sobre a razão. Ele observou como a mente humana, assustada, projeta ordem onde há caos, desenha causas finais onde há apenas sequências cegas, e inventa agentes conscientes por trás dos fenômenos naturais mais corriqueiros. A religião, nesse sentido, nasce do medo, não da revelação. É um filho ilegítimo da ignorância e do terror perante a morte. O grande atrativo, o gancho que prende bilhões, é justamente a promessa de elimin...

ENTRE A CRUZ E A RAZÃO: A CONDENAÇÃO DOS QUE OUSAM PERGUNTAR

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A busca pelo divino é uma trilha solitária, aberta no deserto da alma humana. Desde que erguemos os primeiros altares, acreditamos estar construindo pontes para o céu, caminhos por onde os deuses poderiam descer até nós. No entanto, observando com frieza a paisagem da história, uma pergunta incômoda se impõe: e se, sem perceber, estivéssemos na verdade erguendo muros? Muros tão altos que, em vez de nos aproximar do mistério, nos isolam dele, confundindo a arquitetura do templo com a presença do sagrado. A cultura, em seu esforço nobre de dar forma ao inefável, pode se tornar a mais perfeita obstrução. Tomemos como exemplo os neoplatônicos, como Plotino ou Proclo . Para eles, o acesso ao Uno, ao Princípio primeiro além de todo ser, demandava uma ascese intelectual e espiritual rigorosa, um despojamento de todas as imagens, conceitos e até da linguagem comum (ARMSTRONG, 2013). Era uma jornada interior, negativa, que pressupunha a dissolução das certezas culturais para encontrar uma real...

A CASA DO POVO QUE SE TRANSFORMOU NA CASA DOS SONÂMBULOS

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Esta cada dia mais difícil de acreditar que temos um parlamento digno. A gente vota, espera, e o que acontece? Quem a gente elege parece sumir num labirinto de interesses que a gente nem consegue entender. E o pior: quando aparecem, é mais pra se defender do que pra nos representar.  Cadê a tal da democracia que deveria ser do povo? A verdade é que muitos dos nossos representantes acabam vivendo num mundo paralelo, muito particular. Enquanto muita gente se "vira nos trinta" pra pagar conta, eles brigam por cargos, benefícios e vantagens que nem passam pela nossa cabeça.  O mandato, que era pra ser uma prestação de serviço para o povo, vira trampolim para projetos pessoais.  E nós? Ficamos lá, assistindo bem de longe - e nem só o povo assiste de longe: agora, admite-se até exercício de mandato "de longe", com todos os privilégios, contando com a inércia e a passividade da sociedade, acreditando que protestar nas redes sociais tem mais força do que presença massiva na...

O MERCADO DA HIPOCRISIA ESPIRITUAL NA ERA DO ESPETÁCULO

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Há uma quietude perigosa que se instalou no coração do devocional moderno, uma espécie de anestesia da alma que preferimos chamar de fé. Não aquela fé inquieta, que busca e questiona, mas uma fé-bálsamo , uma fé-analgésico , desenhada não para iluminar os abismos da condição humana, mas para diligentemente ignorá-los. Escolhemos, coletivamente, a fé que tranquiliza em vez da razão que preocupa, trocando a angústia existencial por um conforto embalado a placebo celestial. É uma transação espiritual onde a moeda é a própria lucidez. Podemos encontrar um eco literário preciso dessa fuga no universo de Emma Bovary . Sua queda não começa no adultério, mas na recusa radical do ordinário, no desejo desesperado de que a vida fosse um romance repleto de paixões intensas e significados elevados. A alienação bovariana é, em sua essência, uma recusa de si mesma e do mundo real, em prol de uma ficção mais palatável. Nossa alienação espiritual contemporânea opera com a mesma lógica: renunciamos à...