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OS DEUSES EM SILÊNCIO E O SOM DAS BOMBAS

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A história humana é marcada por uma contradição profunda: a mesma fé que promete consolo e significado também justifica horror e destruição. Nenhum cenário atual ilustra essa paradoxal natureza melhor do que o conflito entre Israel e Gaza, onde a terra considerada santa por três grandes religiões é regada com o sangue dos seus fiéis. Aqui, a promessa de um paraíso futuro parece autorizar a criação de um inferno presente. Observamos, impotentes, a escalada de violência. De um lado, um estado que busca sua segurança e sobrevivência, fundamentado em uma identidade religiosa e histórica milenar. Do outro, um território sitiado, onde a resistência é frequentemente moldada por uma interpretação radical do Islã. Ambos os lados invocam Deus, ou Alá, como seu escudo e sua espada. A pergunta que ecoa, silenciada pelos estrondos das bombas, é: q ue tipo de divindade ordena a morte de crianças em seu nome? O teólogo Paul Tillich oferece uma ferramenta crucial para desmontarmos essa lógica mortal...

REFLEXÕES SOBRE PODER, MEDO E RESISTÊNCIA

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O poder absoluto não corrompe absolutamente; ele atrai os corruptíveis. Por que cidadãos de toda uma nação, ou pelo menos grande parte deles, disseram “ sieg heil ” e assassinaram milhões de judeus, milhares de ciganos, inimigos políticos e homossexuais? Por que o governo de Israel, mata inocentes de fome, numa vingança desproporcional aos ataques do grupo Hamas? " Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor." (Levítico 19:18).  Por que os questionadores estão calados? Essas perguntas, que ecoam tragédias históricas e conflitos contemporâneos, encontram um terreno fértil para reflexão em uma das obras mais profundas da ficção especulativa: a saga Duna , de Frank Herbert. Em meio à comoção midiática que cercou os lançamentos cinematográficos de Dune: Part One (2021) e Dune: Part Two (2024) dirigidos por Denis Villeneuve , vale a pena mergulharmos nas camadas filosóficas da narrativa original, publi...

QUANDO AGARRAR-SE DEMAIS NOS CONSOME

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Vivemos grudados. Nas coisas que acumulamos, nas pessoas que idealizamos, nas certezas que construímos tijolo por tijolo – como se fossem muralhas contra o caos. Esse apego, ah, parece tão natural... um porto seguro, um ponto fixo num mundo que não para de girar. Mas e se esse porto for uma ilusão? E se, ao nos agarrarmos com unhas e dentes, estivermos apenas cavando mais fundo a nossa própria armadilha? Figuras tão distintas quanto o sombrio Schopenhauer , o cáustico Cioran e os antigos sábios budistas, cada qual a seu modo, martelam numa ideia incômoda: o sofrimento que tanto lamentamos brota, com frequência, desse nosso agarrar-se desesperado. Dessa ânsia de possuir, controlar, eternizar o que é, por natureza, fugidio. Schopenhauer via o coração da vida como uma "Vontade". Não uma vontadezinha qualquer, mas uma força cega, insaciável, um monstro faminto morando dentro de nós. Essa Vontade é o motor. Ela nos empurra, sem descanso, na direção do desejo: mais dinheiro, mais...

QUANDO DEUS SOBE NO PALANQUE

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A religião sempre foi um espelho deformado da condição humana . Ela promete sentido no caos, consolo na dor, um fio de luz na escuridão que nos envolve desde o nascimento. Mas quando esse espelho é erguido nos palcos da política, ele distorce a realidade. O que deveria libertar se transforma em corrente; o que deveria iluminar se converte em sombra. Cioran descreveu a fé como um anestésico para a consciência, um bálsamo que nos permite suportar a dor de existir. Mas toda anestesia tem preço. Um povo anestesiado pelo conforto de ilusões torna-se dócil, facilmente guiado por mãos que sabem misturar promessa divina e autoridade humana. O governo que fala em nome de Deus não governa cidadãos; governa fé disfarçada de poder. Nietzsche foi ainda mais direto: o cristianismo é a moral dos escravos. Ensina resignação, subordinação e paciência diante da injustiça. A política, consciente dessa docilidade, usa a fé como muleta. Quanto mais o povo espera recompensas em outro mundo, menos ele ques...

A RELIGIÃO INCULTA PERVERTIDA NO PALCO DO ABSURDO

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 A sensação de desarranjo parece pairar no ar, mais densa a cada manhã. Não são apenas crises pontuais, aquelas que os livros de história registram como capítulos isolados. É como se o próprio chão da normalidade tivesse rachado, e agora pisamos em terreno movediço, onde o absurdo se disfarça de cotidiano. As notícias, um cortejo interminável de conflitos e catástrofes, já não causam espanto, apenas um cansaço mudo. Schopenhauer talvez visse nisso a confirmação sombria de seu mundo como pura Vontade, cega e insaciável, devorando-se a si mesma num espetáculo sem sentido. O palco global parece refletir essa luta cega, onde a razão é a primeira vítima. Em meio a essa turbulência, velhas ferramentas de consolo se transformam em armas contundentes. A religião, que para alguns ainda guarda um refúgio de transcendência, é frequentemente sequestrada por discursos de ódio e exclusão. Assistimos, atônitos ou já anestesiados, a atrocidades cometidas em nome do sagrado. Como Cioran ironizar...

BUSCANDO SIGNIFICADO NUM MUNDO EM CONSTANTE MUDANÇA

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Desde que despertamos para a consciência, uma indagação persiste: qual é o propósito da vida? Uma procura sem fim, uma viagem pessoal que se revela em cenários interiores intrincados e, por vezes, paradoxais. Não existe uma solução universal, um roteiro fixo para todos. O significado, talvez, esteja na própria investigação, na receptividade à vivência e na ousadia de acolher a transitoriedade. No decorrer dos tempos, intelectuais, filósofos e guias espirituais se dedicaram a este questionamento crucial. Para Viktor Frankl , a logoterapia nos incentiva a descobrir sentido até nos momentos mais difíceis, superando o padecimento por meio da procura por um objetivo. Um livro como " Em Busca de Sentido " se torna um guia, evidenciando a habilidade humana de reelaborar a aflição e achar um rumo para o futuro. A corrente existencialista, com expoentes como Jean-Paul Sartre e Albert Camus , nos defronta com a liberdade absoluta e a obrigação pessoal. Sartre, em "O Ser e o Nada...

O PÓ, O SILÊNCIO E AS PEQUENAS VIDAS EM GAZA

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Quando o sol surge no horizonte e atravessa aquele caldo de poeira e fumaça em Gaza, já se foi a bela  paisagem de sempre. O que ele clareia agora é só destroço. Montanhas de concreto triturado que, não faz nem tanto tempo assim, eram casas, escolas, pequenos mercados e hospitais. Onde antes tinha vida – buzina, criança correndo, vizinho gritando no portão - agora virou cemitério a céu aberto, um atrás do outro. Agora, o vento que vem do mar só carrega cheiro de pólvora e fumaça. E tudo isso não caiu do céu do nada – tem uma origem sangrenta, bem marcada: os ataques violentos do Hamas contra civis israelenses lá em 7 de outubro . Aquele dia foi puro terror, morte sem critério, gente sequestrada. A partir dali, apertaram o botão de destruição. A dor das famílias israelenses, que é real, de cortar o coração, virou munição pra justificar uma resposta militar descomunal, sem limite, sem diferença entre quem fez ou quem só  estava ali tentando viver. Honestamente? Perdeu-se qualque...